Num outro tempo, numa outra vida, o Turismo de Portugal lançou uma campanha para promover o Turismo em Portugal para os Portugueses. Nesta altura Portugal não era sexy. Ainda tínhamos Campo de Ourique em vez de Champs d’ouri, o Principe Real tinha um restaurante por quarteirão, era perigoso correr junto ao rio. Ainda se corria, agora faz-se running.
Éramos um tesouro por descobrir.
Os anos passaram e muita coisa mudou.
Vá para fora cá dentro está mais atual que nunca, mas no mercado de trabalho e não no Turismo.
Antes de entrar para a área criativa, trabalhei alguns anos em consultoria. Grande parte dos projeto onde estive envolvido eram sobre transformação digital nas empresas. Largar o papel, digitalizar serviços, serviços partilhados, colaboração online e por aí fora. A resistência à mudança é um dos principais bloqueios do avanço tecnológico nas empresas e por isso a nossa luta diária era convencer os colaboradores (mais do que as direções) a adotar novas formas de trabalhar. O tempo que era necessário para que as equipa adotassem, por exemplo, reuniões não presenciais era de anos e não meses ou dias.
Tudo isto mudou em 2020. A pandemia fez com que a transformação digital das empresas e principalmente das pessoas tivesse uma aceleração quântica. Em poucos meses, a nível mundial (nos países desenvolvidos) todas as empresas e pessoas estavam a trabalhar em full remote. E a gostar!
Já passou algum tempo e todos nos adaptamos através de diferentes modelos: full, híbrido ou presencial. Há quem defenda que vai voltar tudo ao “normal” seja lá o que isso for.
Mas o que é relevante para este artigo é que há algo que mudou, veio para ficar e nunca mais vai voltar atrás: A distância entre países, empresas e pessoas deixou de ser um obstáculo.
Enquanto antes só algumas poucas empresas consideravam trabalhar com pessoas residentes noutros países, hoje em dia tornou-se prática comum. Na nossa indústria o conceito de expatriado desapareceu.
Um mundo novo e melhor! Infelizmente não é assim para todos.
As agências independentes portuguesas estão a ser vítimas de concorrência desleal por parte de agências (independentes ou não) de outros países. Estamos a concorrer no recrutamento de talento, mas não nos clientes.
São dois mercados com regras diferentes, que tornam a gestão das nossas empresas muito difícil.
Estes nossos concorrentes operam num mercado e numa economia bastante diferente da nossa, onde a valorização dos serviços é superior, onde a dimensão do mercado é maior (tanto de anunciantes como de consumidores) e onde o custo para agências portuguesas operarem é inviável.
Estes mesmos concorrentes descobriram que as “nossas” pessoas são excecionais, e que, um ordenado abaixo da média lá é acima da média cá. Mais, os portugueses adoram Portugal e agora podem trabalhar de cá para lá, mantendo um custo de vida inferior, o que torna o ordenado ainda maior.
Ou seja, é o melhor dos dois mundos para o talento e para as empresas estrangeiras. E nós? Bom, nós ficamos com um mercado de trabalho inflacionado, num país que nos estrangula com impostos impedindo assim de contratar ou reter o talento.
Soluções?
É difícil pensar numa solução quando olhamos e vemos que estas gerações estão felizes. Só podem. É certo que desta forma não têm a experiência completa de ir viver para fora, mas aprendem os processos, formas de trabalhar, metodologias novas, clientes incríveis. E em cima disto tudo, trabalham no país onde, aparentemente, todos querem trabalhar hoje em dia.
Podemos fazer a outros o que estas empresas nos estão a fazer? Sim, podemos contratar em países menos desenvolvidos, onde os valores que podemos pagar são aliciantes. A grande diferença é que as pessoas querem sair desses países. As condições que têm lá, mesmo com contratos remotos, não são satisfatórias.
Podemos internacionalizar e concorrer no mercado destas empresas? Podemos, mas é fácil perceber o esforço financeiro e o risco associado a entrar em mercados altamente concorridos contra empresas já estabelecidas localmente.
É de facto um tema que merece reflexão para as agências como a NOSSA. Não tem uma solução óbvia. Do nosso lado, tentamos criar as melhores condições possíveis para que está connosco para que continuem a estar motivados, criativos e felizes. Para que vão para fora (cá dentro ou não) nas merecidas férias.
Vasco Teixeira Pinto, Digital Partner da NOSSA e Partner da Faz MOSSA

