No coração de Cascais, há agora um espaço onde a moda se reencontra com as suas origens. A marca portuguesa de vestuário de autor Benedita Formosinho abriu portas na Casa do Relógio – edifício classificado como Monumento de Interesse Público –, com uma nova loja. Um espaço que quer ser uma montra viva de um propósito tecido com tempo, dedicação e convicção.
Fundada em 2018 pela designer Benedita Formosinho, a marca nasce de um percurso íntimo e determinado, que começou num quarto transformado em atelier e evoluiu para uma estrutura que hoje conta com três lojas físicas (Setúbal, Lisboa e agora Cascais), uma equipa em crescimento e uma identidade firmemente enraizada na sustentabilidade, no design intemporal e no saber-fazer português.
Mas o novo espaço de Cascais – um open space de 65m², banhado pela luz da vila – é também o reflexo de uma visão partilhada. Ao lado da filha criadora, está a mãe estratega. Com formação em áreas científicas, Perpétua Formosinho assume a responsabilidade pela sustentabilidade e pelo desenvolvimento estratégico da marca. Juntas, apresentam uma proposta ética e poética, onde “o que fazemos importa” não é apenas um lema, mas uma linha condutora.
É neste espaço que se apresenta a mais recente coleção – TERRA –, marcada por uma paleta de tons crus, areia e terracota, tecidos naturais e cortes fluídos que atravessam estações. Aqui também se revela o primeiro modelo de calçado da marca – ORIGEM –, um manifesto tangível daquilo que a marca representa: a ancestralidade como ponto de partida para a inovação: é que Perpétua é alentejana. Feito com manta alentejana tecida artesanalmente, microfibras ecológicas à base de milho, e solas de cortiça e borracha natural, o sapato unissexo une tradição e design contemporâneo numa “pegada leve, mas firme”.
No centro da nova loja, uma instalação artística conta a história do projeto de circularidade interna “O nosso lixo não é lixo”, que transforma os desperdícios de corte em novo fio, e é depois vendido a criadores e usado pela marca em novas peças. Uma parceria com a J.Gomes (unidade portuguesa de reciclagem têxtil) tornou este ciclo possível e espelha a resiliência de quem, no início, teve de convencer fábricas habituadas a grandes volumes a trabalhar para uma produção consciente e em pequena escala.
Cada peça Benedita Formosinho começa nos materiais – todos 100 % portugueses – e prolonga-se numa confeção minuciosa, feita com tempo e por mãos que compreendem o valor da durabilidade. Gangas, camisas e blusas em algodão orgânico, burel da Serra da Estrela, manta alentejana: a marca constrói um guarda-roupa onde tudo se conjuga, sem ceder à ditadura das tendências. Tamanhos do 32 ao 44 (com o alargamento recente da numeração), peças que transitam entre coleções, e uma crescente atenção ao vestuário masculino, respondem a uma procura que valoriza o conforto, a autenticidade e o made in Portugal.
O canal online, ativo desde o início, é outra frente de aposta para 2025. Com clientes em países como Espanha, Alemanha, Áustria e Canadá, a internacionalização está a ser tricotada com o mesmo cuidado com que se escolhe o fio certo para uma peça-chave.
Sofia Dutra


