O impacto da Inteligência Artificial no trabalho no setor digital

A Inteligência Artificial está a transformar o modo como criamos, trabalhamos e competimos a velocidade que ultrapassa tudo o que já vivemos no digital. O CEO da Innovagency, Pedro Lobo, reflete sobre esta mudança e aponta as novas dinâmicas que estão a redefinir o setor e a separar quem lidera de quem apenas acompanha.

O impacto da Inteligência Artificial no trabalho no setor digital

A grande mudança

A Inteligência Artificial (IA) está a provocar uma transformação profunda no modo como vivemos, criamos e trabalhamos. Há quem acredite que estamos a exagerar na dimensão desta mudança. Mas, mesmo que a tecnologia não evoluísse muito mais do que já evoluiu, o impacto atual seria, por si só, extraordinário e superior ao da própria revolução digital trazida pela massificação da internet no final dos anos 90.

Estamos hoje perante uma massificação da adoção de ferramentas de IA em todos os setores de atividade. A aplicabilidade cresce de forma exponencial porque dois motores avançam em simultâneo: algoritmos cada vez mais sofisticados e capacidade de processamento incomparavelmente superior. A isto junta-se o acelerador que faz toda a diferença: dados. Quanto mais confiança tivermos para subir dados para as ferramentas de IA, maior é o seu potencial. E estamos apenas no início desse processo.

Curiosamente, aquilo que já entregámos durante anos a gigantes como a Google, a Microsoft ou a Spotify ainda não entregamos a ferramentas como o ChatGPT ou o Perplexity. Mas a fusão entre IA e dados pessoais ou corporativos é, provavelmente, o maior salto de aprendizagem e eficiência que iremos testemunhar. Oportunidade enorme, riscos igualmente grandes. A balança terá de ser gerida, mas a mudança já está em curso.

O que já está a mudar nas empresas e nas pessoas

O impacto da IA espalha-se de forma transversal. Em setores tão diversos e dispersos como da agricultura à indústria automóvel, da medicina à engenharia de materiais. No mundo empresarial há uma pressão crescente para não perder competitividade. E enquanto muitas organizações ainda avançam cautelosamente, muitos profissionais abraçam esta mudança por paixão, necessidade ou pura curiosidade. Mas sempre com uma enorme expectativa de extração de ganhos a partir destas novas ferramentas.

E é aqui que surge uma assimetria interessante: as pessoas estão a avançar mais depressa do que as empresas. Há mais inovação individual do que adoção estruturada. Muitos profissionais usam IA para expandir capacidades, otimizar tarefas e acelerar resultados. Mas esse uso ainda não está, na maior parte dos casos, ligado aos objetivos estratégicos das empresas. E é precisamente aí que reside a próxima fronteira.

Esta evolução também está a gerar um novo tipo de competição nas equipas: o designer que faz código, o developer que cria copy, o copywriter que gere campanhas, o estratega que produz análises técnicas. Os profissionais ampliados começam a ganhar terreno. A sua produtividade dispara e o seu impacto tende a ser superior ao dos colegas que resistem à aceitação das novas ferramentas.

Onde as empresas estão a sentir mais impacto

Embora a adoção ainda esteja longe do seu potencial, há áreas onde os efeitos já se fazem sentir: Marketing e Vendas lideram, seguidas de Operações. As atividades mais impactadas atualmente são:

– Criação de conteúdos;

– Automação da relação com clientes:

– Gestão e otimização de campanhas;

– Análise e tratamento de informação.

Mas onde existe maior oportunidade, e onde poucas empresas estão a investir com profundidade, é na orquestração de processos internos, combinando IA com supervisão humana. Nesta área, a eficiência, a redução de custos e a capacidade de escalar trabalho são impossíveis de ignorar.

No entanto, os ganhos ainda não são massivos. Um estudo recente do MIT conclui que 95 % das empresas ainda não tiraram proveito real da sua aposta em IA. As frustrações repetem-se:

– Resistência das equipas à mudança;

– Falta de qualidade e consistência dos modelos;

– Incapacidade das ferramentas para se adaptarem à realidade de cada organização

Por outro lado, os casos de sucesso têm um padrão claro: começam pelos processos de maior valor, evoluem de forma contínua e aprofundam o uso da tecnologia com especialização.

Não é na IA “generalista” que está o ouro, mas nas ferramentas altamente especializadas. Os fabricantes tradicionais adaptam-se, as ferramentas AI-native estão a conquistar espaço e os grandes players generalistas continuam a puxar o mercado para a frente.

A nova divisão entre profissionais

Estamos a caminhar para uma nova divisão nas equipas: os que lideram esta mudança e os que ficam para trás.

Os profissionais capazes de aliar conhecimento, criatividade e domínio de ferramentas de IA terão um impacto muito superior e representarão grande parte da produtividade futura. A história mostra que cada revolução tecnológica reforça esta diferença e a IA está claramente a repetir o padrão.

E no setor digital? A grande revolução continua aqui

No universo do digital (criatividade, estratégia, desenvolvimento e comunicação) este impacto será especialmente expressivo.

É um setor que combina:

– Tarefas cognitivas complexas;

– Necessidade de visão estratégica;

– Execução altamente especializada;

– Capacidade criativa e sensibilidade humana.

Ou seja, terreno fértil para grandes ganhos e grandes riscos.

Há oportunidades claras para otimizar processos e reduzir custos, mas há também o risco de um alisamento criativo e de uma perda real de diferenciação.

Se não formos cuidadosos, o digital pode transformar-se num cockpit onde os humanos dão instruções e a IA faz quase tudo o resto, o que nos pode deixar apenas como supervisores humanos, de elevado valor e papel crítico.

Como cada profissional responde a esta mudança (aprender, adaptar, experimentar) vai definir quem se mantém relevante e quem perde espaço.

 

A IA não está a chegar, ela já chegou e está a reescrever o manual de funcionamento do sector digital.

Vivemos um momento único: profissionais individuais a avançar mais depressa do que as empresas, empresas a tentar ganhar tração, ferramentas altamente especializadas a surgir todos os dias, fronteiras funcionais a desvanecerem-se e uma nova ordem de produtividade a despontar.

A verdadeira questão já não é se vai mudar tudo, mas quem vai liderar essa mudança e quem vai apenas acompanhá-la à distância.

E, no sector digital, essa resposta está a ser escrita agora.

Pedro Lobo, CEO da Innovagency

Sexta-feira, 12 Dezembro 2025 12:19


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