Briefing | O IV Congresso das Marcas decorre sob o mote “À Velocidade Humana”. Como nasceu este tema e que debate pretende lançar junto das marcas e empresas?
Pedro Pimentel | O tema nasceu quase como uma reação ao próprio tempo que estamos a viver. Vivemos num período em que mostramos sinais de obsessão pela aceleração: mais tecnologia, mais automatização, mais urgência, mais ruído, mais pressão. E sentimos que era importante provocar uma reflexão talvez um pouco contracorrente… será que estamos realmente a decidir melhor só porque decidimos mais depressa?
“À Velocidade Humana” não é um apelo ao abrandamento ingénuo. É um apelo à qualidade da decisão, à profundidade do pensamento e à capacidade de preservar aquilo que verdadeiramente cria valor sustentável: liderança, cultura, criatividade, confiança e capacidade de interpretação. Num mundo dominado por algoritmos, quisemos recentrar a atenção nas pessoas. E isso é quase provocador nos dias de hoje.
No fundo, este Congresso pretende lançar um debate muito simples, mas muito relevante sobre como é que marcas, empresas e organizações podem continuar a crescer, inovar e competir sem perderem o seu centro humano e o seu foco sobre as pessoas, porque acreditamos que o futuro não pertencerá necessariamente aos mais rápidos, mas sim aos que conseguirem interpretar melhor o contexto, as pessoas, o consumo e a transformação que está em curso.
Que tipo de oradores e perspetivas estarão representados nesta edição do Congresso da Centromarca?
Uma das grandes preocupações desta edição foi precisamente evitar um Congresso fechado sobre si próprio ou excessivamente setorial. O programa foi desenhado para cruzar perspetivas muito diferentes – economia, consumo, tecnologia, saúde mental, longevidade, cidades, inovação, retalho, liderança ou inteligência artificial – porque os desafios das marcas hoje já não vivem confinados em silos.
Temos académicos, gestores, especialistas em comportamento do consumidor, líderes empresariais, responsáveis do retalho, especialistas em tecnologia, representantes do universo público e até áreas aparentemente mais distantes, como linguagem, saúde mental ou a demografia. E isso foi deliberado. Porque as grandes decisões económicas começam muitas vezes fora do que podemos designar como economia convencional.
Há também um equilíbrio importante entre pensamento estratégico e experiência prática. Não quisemos apenas pessoas que falam sobre tendências; quisemos pessoas que tomam decisões reais, gerem equipas, enfrentam mercados e vivem pressão competitiva todos os dias. Isso torna o debate mais rico, mais autêntico e menos teórico.
E talvez haja aqui uma pequena provocação saudável… demasiados eventos falam apenas para quem já aderiu ou concorda com os pressupostos da discussão. Num ângulo diferente, quisemos criar algum desconforto intelectual positivo. Misturar perspetivas. Cruzar visões. Obrigar pessoas de áreas diferentes a ouvirem-se mutuamente. Esbater a polarização. Construindo pontes e abandonando trincheiras. Porque a inovação e o pensamento estratégico raramente nascem em ambientes excessivamente homogéneos.
O programa aborda temas como tecnologia, inovação, liderança e consumo. Qual é o fio condutor que liga estas diferentes dimensões?
À primeira vista, os temas parecem muito diferentes. Mas, na verdade, todos convergem numa mesma questão: como criar valor sustentável num mundo cada vez mais acelerado, complexo e imprevisível? Seja quando falamos de inteligência artificial, de retalho, de liderança ou de longevidade, estamos sempre a discutir a capacidade de adaptação das empresas sem a perda da sua identidade. E isso hoje tornou-se absolutamente central para marcas e organizações.
Existe também um segundo fio condutor muito forte, que passa pela ideia de que o contexto deixou de ser pano de fundo e passou a ser parte integrante da estratégia. Hoje já não é possível discutir consumo sem discutir demografia. Não se pode discutir inovação sem discutir cultura organizacional. Não se pode falar de tecnologia sem discutir impacto humano. E não se pode falar de competitividade ignorando energia, geopolítica ou talento.
No fundo, o Congresso procura transmitir a ideia clara de que as marcas deixaram de competir apenas por produto, preço ou notoriedade. Competem por relevância, interpretação e capacidade de criar efetivo significado num ambiente de enorme fragmentação. E talvez essa seja hoje a verdadeira vantagem competitiva. Não apenas acelerar, mas perceber para onde faz sentido acelerar.
Porque é que consideram este um momento particularmente relevante para discutir o equilíbrio entre crescimento, desempenho e bem-estar?
Porque estamos a chegar a um ponto em que começa a ser evidente que o crescimento sem, em simultâneo, sustentabilidade humana cria fragilidade organizacional. Durante muitos anos demos a primazia a velocidade, hiperperformance e disponibilidade permanente quase como modelos absolutos de sucesso. Hoje começamos finalmente a perceber que há custos invisíveis associados a essa lógica: desgaste, perda de foco, erosão de talento, ansiedade e incapacidade crescente de manter consistência.
Ao mesmo tempo, os consumidores também mudaram. Tornaram-se mais conscientes, mais exigentes e muito mais atentos à coerência entre discurso e prática. As pessoas já não escolhem apenas produtos; escolhem marcas, culturas e organizações com as quais se identificam. E isso obriga empresas e líderes a pensar de forma mais integrada o desempenho económico, o bem-estar, o propósito e a qualidade da experiência humana.
Há ainda uma dimensão económica muito relevante: o talento irá provavelmente tornar-se o recurso mais escasso da próxima década. E organizações incapazes de criar ambientes sustentáveis, culturas fortes e sentido de pertença terão cada vez mais dificuldade em atrair, desenvolver e reter pessoas qualificadas. A competitividade futura vai depender muito mais da qualidade das culturas do que apenas da qualidade das estruturas.
E talvez aqui exista uma provocação importante, porque durante demasiado tempo discutimos produtividade quase exclusivamente como tema operacional ou tecnológico. Mas produtividade também é motivação, saúde mental, foco, qualidade de liderança e capacidade de construir confiança. E isso exige uma visão mais sofisticada da economia e das organizações. Crescer continua a ser essencial. Mas crescer bem tornou-se ainda mais importante.
O que distingue esta edição do Congresso das anteriores e que impacto esperam gerar junto dos profissionais e decisores presentes?
Esta edição tem provavelmente uma ambição mais transversal, mais madura e mais estratégica do que as anteriores. O Congresso deixou definitivamente de ser apenas um momento setorial sobre marcas ou grande consumo para se afirmar como uma plataforma mais ampla de reflexão sobre competitividade, liderança, sociedade, inovação e criação de valor. E isso nota-se quer na diversidade dos temas, quer na diversidade dos participantes e oradores.
Mas talvez o aspeto mais diferenciador seja outro: quisemos criar um Congresso menos centrado em respostas fechadas e mais centrado em perguntas relevantes. Num tempo excessivamente dominado por opiniões rápidas e certezas instantâneas, quisemos valorizar a reflexão, o pensamento crítico e alguma inquietação estratégica. Se no final do dia os participantes saírem do evento não apenas mais informados, mas sobretudo a pensar melhor sobre o futuro das suas organizações, então o Congresso já terá valido a pena.
Carolina Neves

