E porquê um reserva? É que Ana Rocha entende que, tal como as mulheres, o vinho precisa de tempo para trazer ao de cima o seu melhor. Daí o estágio em barricas e, depois, em garrafa. Não tem dúvidas de que, com a passagem do tempo, vai melhorando. “Eu acredito que nós, as mulheres, também precisamos de tempo para trazer ao de cima o nosso melhor. Todas as idades têm coisas boas, mas, com a idade, passamos a adquirir umas e a deixar de lado outras, o que nos permite viver a vida em pleno e com sabedoria”, partilha.
Estas convicções confirmaram-se quando conheceu Maria Seruya. Antes, porém, importa saber como é que Ana ficou à frente dos destinos da Morais Rocha Wines. A empresa foi criada em 2004 pelo pai, que nunca tinha estado ligado aos vinhos, já que a sua atividade profissional sempre decorreu no porto de Lisboa. E todos os anos adquiria vinhos que oferecia aos grandes clientes nacionais e internacionais. Uma despesa que o fez refletir sobre como podia aproveitar a propriedade que detinha na Vidigueira para produzir vinho e azeite e, desse modo, também partilhar um pouco da sua terra.
Dez anos volvidos – e depois de, como admite, ter andado a fugir da empresa familiar – Ana, licenciada em Gestão e com um MBA em Martketing, assume o negócio e chama a si a missão de trabalhar as marcas de uma forma um pouco irreverente. Procedeu ao restyling do portefólio, lançando novas referências, entre as quais o Sei Lá, a primeira linha de vinhos (rejeita claramente a expressão “entrada de gama”, que considera desvalorizadora).
Até que há três anos se deparou com Maria Seruya num programa de televisão. Já havia refletido sobre a masculinidade do mundo dos vinhos, pelo que começou a germinar a ideia de um vinho que fosse uma homenagem às mulheres e – inspirada nas Velhas Bonitonas – ao envelhecimento.
“Fez-me logo sentido que fosse a Maria a fazer esta parceria. Pelo conceito, pela arte, pela irreverência nos retratos. Demorou três anos, porque só o lançámos quando tivemos a certeza de que era mesmo este o projeto”, conta. O projeto é a coleção As Velhas, três garradas do mesmo reserva, vendidas num pack, cada uma com uma ilustração diferente – uma velha europeia, que também pisca o olho ao Brasil, uma africana e outra asiática.

E as Velhas Bonitonas como reagiram? “Ficaram encantadas”, diz a autora, comentando: “Atirei-me de cabeça.” Esta é uma evolução num percurso que começou, de forma espontânea, com Maria Seruya a pintar caras de mulheres velhas que a faziam sentir-se bem. O projeto acabou por ganhar vida própria, com a participação em eventos sobre envelhecimento a permitir-lhe fazer chegar a sua arte a mais pessoas e a empoderar mulheres reais.
“O meu trabalho já era muito social. Primeiro sem dar por isso, depois conscientemente, era um trabalho de mudança de narrativa do envelhecimento feminino. Pintava mulheres irreverentes, cheias de rugas, sem complexos, sem culpas; simplesmente, envelheciam como queriam”, conta.
Até que chegou o desafio de Ana Rocha para criar um produto em que há uma metáfora: “Estamos a dizer que as mulheres, com o tempo, ganham qualidade, tal como o vinho. Estamos a contar uma história. Podemos aprender com este produto. Mais do que uma experiência de vinho, é uma experiência de vida.”
E, porque o tema não é nacional, acabou por ser concretizado nas três ilustrações de etnias distintas visíveis nos rótulos. Foram produzidos apenas 500 packs, mas a resposta do mercado foi tal que a segunda edição já está a ser pensada. “Acreditava que ia ter impacto, mas não estava à espera que fosse tão rápido. Isso veio reforçar a nossa visão”, afirma Ana, dando conta da intenção de “mexer n’As Velhas”, juntando-lhes, por exemplo, uma que seja oriunda das zonas mais frias do mundo. Para isso, entrará no pack um reserva branco. Porém, a ideia não é que seja um projeto de massa, nem esta coleção, nem a própria Morais Rocha Wines, que produz 300 mil garrafas anuais e tem capacidade para mais, mas, para já, não quer: “Prezamos muito a qualidade.”

