Há vários anos que trabalho esta matéria. São também bastantes os trabalhos que já acompanhei que revelam isso mesmo: o quanto a música é importante para as pessoas. Metodologia quantitativa. Qualitativa. Métodos mistos. Amostras maiores ou menores. Rigor na selecção do método e acuidade no seu desenvolvimento à parte, a verdade é que a indicação final é invariavelmente a mesma: “a rádio é uma companhia e oiço a rádio pela música”.
Estudos de mercado, investigações científicas e relatórios profissionais desvendam a relação indelével entre a rádio e a música. Facto que me leva frequentemente a pensar na dispersão dos indivíduos: rádio, televisão, sites de redes sociais (YouTube, no caso), serviços de música online (Spotify como exemplo top of mind), aplicações móveis (jogos, principalmente).
E a considerar, também, outras três questões: “a rádio é companhia e oiço rádio pela música”, afirmam as pessoas. As audiências de rádio, via Bareme Rádio, da Marktest, mostram uma audiência de rádio estabilizada ao longo dos últimos dez anos e as estações de maior notoriedade batem-se pela liderança com percentagens de share superiores a estações equivalentes em outros mercados.
No entanto, há também dados que mostram a audiência crescente de serviços como o Spotify ou redes como o YouTube. E, quando perguntamos directamente a grupos entre os 12 e os 24 anos, afirmam não ouvir rádio. Em compensação, consomem muita música, sob as mais diversas formas e usando as mais diversas fontes. Vão a concertos e festivais e não se preocupam com planos de dados, simplesmente porque há wireless em quase todo o lado. E que dispositivo utilizam mais, para isso? O smartphone, claro está.
Por outro lado, algumas estações de rádio recebem prémios de marketing e de reputação de marca. O que não seria possível se ninguém as ouvisse. Portanto: as estações de rádio inovam (distribuição, oferta de conteúdos); enchem salas com espectáculos próprios; têm níveis de reputação elevados e, apesar da crise, não lhes falta publicidade.
Há, portanto, algo nesta equação que não está bem. Ou andamos todos a trabalhar para uma audiência que afirma ouvir rádio e que, na realidade, não existe… Mas, desta forma, os espectáculos organizados por estas estações de rádio estariam vazios. E não estão. Ou fazemos as perguntas erradas às pessoas igualmente erradas… O que me parece pouco provável. Pode ser que a rádio se tenha concentrado (demais) naqueles que conduzem, aproveitando a circulação automóvel para contactar com uma, ainda assim, imensa audiência… Mas, então e os jovens que constam do Bareme Rádio?
Finalmente, pode ser que se tenha tornado cool entre os jovens afirmar que não se ouve rádio. O que é mau para a rádio, no geral… Contudo, são estes mesmos jovens que reconhecem as marcas quando se lhes pergunta sobre cada estação de rádio e, a não ser que os pais os obriguem, também estão nas salas de espectáculos. Afinal, há jovens a ouvir rádio, ou não? É que também eles afirmam ouvir rádio pela música e a companhia. Ou não?

Para a maior parte das pessoas, a rádio é música. Não são precisos relatórios produzidos nos Estados Unidos para chegar a essa conclusão. Até os mais simples ou rudimentares estudos revelam isso mesmo.