Há dias, cruzei-me com o António da Silva, a quem carinhosamente apelidei de António (podcast) da Silva. António não cria o seu próprio podcast, não inventou uma aplicação para gerir podcasts. É, antes, um ávido consumidor de podcasts. Todos provenientes da rádio.
António usa diariamente transportes públicos. Poderia ir de carro, mas como diz a campanha da CP, usando o comboio o António pode ser mais qualquer coisa. Optou, mesmo não sendo estudante, por ser mais… digamos, culto e informado. Passou a ouvir mais rádio. Melhor, mais programas de rádio, provando que a rádio de programas pode, e deve, voltar, mesmo que em combinação com a playlist e a locução de continuidade. Provando igualmente que o paradigma mudou. A rádio, hoje, também é em directo, mas é cada vez mais em diferido, para dar resposta às necessidades (e vontades, diria) de cada ouvinte.
Se, para as marcas, a comunicação ou aproximação ao consumidor é cada vez mais relacional, num diálogo dirigido como se fosse criado para cada um de nós, individualmente, porque haveria a rádio de continuar a funcionar no tempo da comunicação de massas?
Para o António da Silva (ou podcast, da Silva), a “sua” rádio são os programas que mais gosta de ouvir. Não lhe chega um fluxo contínuo de música, notícias e publicidade. Isso é ruído de fundo, disse-me. Para ouvir, afirmou, gosta de ouvir pessoas a contar histórias, ou a discutirem temas que são importantes para si. E, o que é importante para o António será certamente para muitas outras pessoas. Da música – porque disse gostar de descobrir coisas novas que alguns locutores de referência lhe apresentam -, ao humor, passando pelo desporto e as conversas de fim de dia, o seu smartphone tem podcasts para vários gostos, que escuta de acordo com a sua disposição e tempo disponível. Actualiza os podcasts diariamente. Lê o tópico na apresentação do episódio. Descarrega em casa o que pretende ouvir nesse dia e sai para trabalhar. No regresso, a mesma rotina. Só gostava de descobrir uma aplicação que lhe permitisse gerir os podcasts que tem descarregados para os alinhar e criar uma sequência. No fundo, fazer a sua própria estação a partir da rádio. Eu, também. Confesso.

Há tempos,