Como o embrulho de um presente, é o conteúdo que vai fazer a diferença entre o gostar muito ou pouco, o ficar ou não ficar. E é o verbo que faz a diferença. Ficar significa fidelizar – tanto quanto é possível num contexto de múltiplas opções e de uma oferta renovada quase diariamente – através daquilo que nos estimula e prende a atenção.
Por mais que possamos gostar do que uma marca nos promete, é no momento em que a experimentamos que o futuro se decide. Os problemas de serviços como o Spotify ou o Netflix começam aqui.
Perante a hipótese do Netflix chegar a Portugal arregalei os olhos de contente. E não vou armar-me em pseudo-moralista, defender ideologias ou advogar os direitos de autor. Admito que não tenho tempo, ou paciência, para descobrir o melhor site para conseguir aquilo que quero – entenda-se descarregar de um servidor alojado em qualquer lado a série ou filme que desejo -, quero ver com qualidade e sem imagens captadas com uma câmara de vídeo caseira no cinema, ou ver as versões que (sabe-se lá como) saíram de casa de um membro do júri dos óscares e foram parar à Internet. Também tenho medo de vírus e sempre tive um certo sentimento de posse em relação aos produtos culturais de que gosto. Finalmente, mesmo considerando que o preço da cultura é elevado e, ainda que tenhamos desde sempre, emprestado filmes, mixtapes ou álbuns aos amigos, parece-me que a ampliação desse ritual – de partilha dos produtos culturais – para um contexto global não estará correcta.
Porque consumo apenas aquilo de que realmente gosto, agrada-me a ideia de ter o filme ou a(s) temporada(s) das séries. Mesmo que hoje, esse ter signifique compilar um conjunto de ficheiros Mp3 organizados no iTunes com uma imagem da capa do álbum (a qual nunca chego a tocar ou sentir o cheiro do papel impresso, aquele papel de qualidade, brilhante que dá pena quando se amachuca ou rasga ao entrar na caixa do Cd), mas que sinto como meu. Ou as séries, arrumadas em pastas num disco externo que se liga à televisão. Nada disto tem equivalência ao sentimento de posse de há poucos anos. Mas tem repercussões para estes serviços, que baseiam a sua oferta no pressuposto daquilo que o público gosta e dependem da negociação de direitos com as distribuidoras. Por isso, com ou sem Netflix, com ou sem Spotify, o que as pessoas querem é o conteúdo de que mais gostam. E irão procurá-lo onde este estiver. De forma mais, ou menos, legal…

Na rádio, como na televisão, uma boa estratégia de marketing ajuda. Boas definições e ferramentas de branding também. Mas, porque na vida há sempre um mas, o conteúdo faz sempre a diferença.