Comunicamos para mudar. A questão é: O quê?

A Account Business da LPM, Maria Correia, defende que comunicar é mais do que transmitir mensagens; é participar ativamente na construção de perceções, influenciar comportamentos e assumir a ambição de gerar impacto real.

Comunicamos para mudar. A questão é: O quê?

A comunicação nunca foi neutra. Mesmo quando aparenta apenas informar, entreter ou posicionar, está sempre a moldar perceções, atitudes, comportamentos ou prioridades. Talvez o que muda de geração para geração não seja o poder da comunicação, mas a consciência que temos dele.

Como Gen Z e profissional do setor, cresci num contexto em que a mudança deixou de ser exceção e passou a ser norma. Crises sucessivas, transformações sociais aceleradas, debates culturais constantes. Aprendemos cedo que o mundo é complexo e que a estabilidade é, muitas vezes, transitória. Essa lucidez tornou-nos realistas. Mas também nos tornou ambiciosos.

Não comunicamos apenas para ocupar espaço. Comunicamos para mudar algo.

A minha geração sente com intensidade e mobiliza-se quando reconhece a possibilidade de transformação. Não por idealismo ingénuo, mas porque percebe que a mudança coletiva é, muitas vezes, a única forma de alterar realidades que parecem estruturais. E é aqui que a comunicação assume um papel central.

A mudança não acontece apenas através de políticas públicas ou decisões empresariais. Acontece também através de narrativas, símbolos que ganham visibilidade e momentos culturais que reconfiguram o que é considerado central, legítimo ou possível. É assim que temas emergentes ganham voz na arena pública, que novas perspetivas encontram espaço e que certos comportamentos deixam de ser exceção.

Como profissionais, isto obriga-nos a uma reflexão mais ampla. Ao criar uma estratégia, não definimos apenas mensagens: contribuímos para a construção de sentido. Influenciamos a forma como um assunto é percebido, debatido e integrado no quotidiano. Uma narrativa consistente altera o debate. Um compromisso claro ajuda a mudar atitudes. Uma mensagem sustentada transforma a perceção de uma causa.

A pergunta deixa então de ser “qual o objetivo da campanha?” e passa a ser outra, mais exigente: “que mudança queremos realmente promover?”. Pode ser uma alteração de comportamento ou de perceção, algo subtil ou profundo. Mas a intenção transformadora está lá.

Não se trata de romantizar a comunicação ou de lhe atribuir um poder absoluto, mas de reconhecer que cada ação participa num ecossistema maior, com capacidade para unir e mobilizar em torno de uma visão comum.

Enquanto Gen Z, procuramos esse horizonte. Sabemos que as marcas têm objetivos e responsabilidades, mas acreditamos que podem ser agentes de evolução cultural. Não através de declarações grandiosas, mas de posicionamentos consistentes e ações alinhadas com o que comunicam.

Talvez o CTR-Z que nos cabe fazer seja este: rever a ambição com que encaramos o nosso papel. Não para apagar o passado, mas para interromper automatismos e questionar a lógica do curto prazo. Comunicar não é apenas executar e medir. É participar na forma como o mundo se organiza e se interpreta.

Porque comunicar é sempre intervir. A questão é se o fazemos com consciência dessa responsabilidade e com audácia suficiente para criar algo que vá além do momento.

Maria Correia, Account Business da LPM

Terça-feira, 21 Abril 2026 10:26


PUB