É a genuinidade que define a Leitão & Irmão e permanece desde o seu nascimento, garante Jorge Van Zeller Leitão, atual proprietário da joalharia, que teve o seu início na Rua das Flores, no Porto, e continua duzentos anos depois na mesma família. Pelo meio, mudou-se para Lisboa, graças ao título de Joalheiros da Coroa, ainda no século XIX, e abriu lojas em Lisboa e Cascais: Chiado, Bairro Alto e Arcadas do Parque Estoril.
Com conceito, criatividade e manufatura desenvolvidos nas oficinas da marca bicentenária, tem as suas características e caráter próprios expressos no universo de sonhos que é a joalharia. Pertencente à sexta geração da família, Jorge Van Zeller Leitão afirma que, se a qualidade de matérias-primas certificadas estão, regra geral, presentes nesta indústria, aqui esses valores fundem-se com a “excelência” da manufatura.
“Sem entregar ou mesmo exceder a qualidade expectável não teríamos chegado aos 200 anos”, comenta. “É certo que o ouro e pedras preciosas estão já por direito próprio num elevado nível. Na Leitão & Irmão, o nível das matérias-primas integra uma manufatura de excelência empegue em design de ‘carater’ Leitão”, nota, sobre a marca que não podia deixar de ser portuguesa. O primeiro slogan, esse, já remetia para o caráter luso: “Não há arte sem cunho nacional”.
São peças que custam tempo. As edições são “muito pequenas” e o stock é limitado, uma vez que cada peça é realizada nas oficinas da marca. “Há uma boa expressão inglesa para a manufatura de excelência: Crafts”, diz. Por exemplo, um par de brincos ou um anel, feito por medida e com desenho próprio, pode facilmente demorar uma média de 160 horas a estar finalizado, desde a fundição até chegar à mão do cliente, passando pelos serviços de garantia da contrastaria portuguesa. “Este fator faz com que cada peça seja especial e uma conjugação de dedicação, manufatura e qualidade”, observa.
Hoje, são cerca de 50 as pessoas que trabalham na marca, produzindo em conjunto milhares de peças, distribuídas entre duas gamas de produto: além da joalharia, decoração. Anualmente, saem das oficinas dez mil referências e uma média de 57 coleções. No ano passado, foram produzidas mais de cinco mil peças, das quais 450 foram reparações, restauros ou alterações a peças existentes e cerca de 1500 peças à medida, realizadas através do Atelier de serviços Be Spoke.
Duzentos anos depois, o foco é em trabalhar a notoriedade e visibilidade, essencialmente através do digital. “Uma característica essencial para que possamos chegar às gerações mais jovens que nos trarão o futuro da casa: aos Millennials, Gen Z, Alpha”, comenta, sustentando a importância de aprender com os mais novos. Assim, além das três lojas, o e-commerce e o omnichannel convergem no sentido de fornecer um “contacto de luxo” com o cliente. É a trabalhar esta relação que a marca se mantem relevante. Na montra para o mundo, que é a loja online, a estratégia é ser “Glocal” – global, mas local.
Fulcral para a aproximação a um target mais jovem foram também as recentes coleções em colaboração com Débora Montenegro ou Carolina Curado. “Foram pontos diferenciadores no sentido de trazer diferentes formas de comunicar à casa e direcionamento da comunicação para targets mais abrangentes”.
“É também importante estar aberto a tendências e lançar tendências. Neste fator, somos uma casa criativa, permanentemente aberta ao mundo novo. Foi no mundo novo que construímos duzentos anos de atividade e é nesse mundo que queremos continuar a construir”, afirma, adiantando que é assim que se inova e mantém relevante uma marca com dois séculos.
“Os 200 anos são um marco importante, que respeitamos, e que devemos a quem nos precede”, defende. Não considera, porém, esse tempo como um propósito em si. É consequência. “Trabalhamos a modernidade e não a antiguidade. Os duzentos anos traz-nos um ativo acrescido, que olhamos com alguma vaidade e a responsabilidade de honrar”.
A maior ambição é, revela o porta-voz, manter-se coerente às suas características próprias de “criatividade, de qualidade, manufatura e respeito pela arte de ourivesaria” e em simultâneo continuar atual, jovem, dinâmica e universal através do digital.
Satisfeito com o caminho percorrido, sobre o que, daqui a um século, gostaria a marca de ter alcançado, Jorge Van Zeller Leitão é claro: “Se, aos 300 anos, pudermos mostrar e orgulharmo-nos do que fizemos nos últimos cem, seria fantástico”. “Manter a notoriedade e referência de qualidade entre os nossos clientes, trabalhar com projetos e peças que se tornam históricas, ter artistas que se unem à Leitão & Irmão e ter uma nova geração de clientes que vêm na Casa Leitão o local de onde ambicionam ter as suas joias? Não sabemos imaginar o mundo dentro de cem anos. Não nos atrevemos a imaginar a casa Leitão nesse mundo, mas queremos estar lá”, remata.
Sofia Dutra
O artigo saiu na edição impressa de setembro de 2023.





