A opinião de… Carina Martins, da Connect Digital

A Chief Experience Officer da Connect Digital, Carina Martins, escreve sobre as ferramentas B2B com lógica B2C e defende: a transformação começa na experiência.

A opinião de... Carina Martins, da Connect Digital

Durante anos, a transformação digital foi tratada como um mero esforço tecnológico. Mas a verdadeira transformação, aquela que aumenta a produtividade, atrai talento e reduz custos operacionais, começa pela experiência do utilizador. E neste caso, o utilizador não é (apenas) o cliente: é o colaborador.

Vivemos uma contradição evidente. As empresas investem milhões de euros na criação de experiências digitais sofisticadas para o consumidor final, mas continuam a oferecer aos seus colaboradores plataformas internas obsoletas, rígidas e desenhadas por engenheiros sem foco na usabilidade. O resultado? Perdas de eficiência, processos manuais que poderiam ser automatizados e equipas frustradas com ferramentas que atrapalham mais do que ajudam.

É tempo de questionar: por que continuamos a não tratar a employee persona com o mesmo cuidado com que tratamos a customer persona? Por que razão não se tem o mesmo cuidado? O colaborador digital já não aceita menos.

Hoje, mais da metade da força de trabalho global é composta por millennials e Gen Z: gerações moldadas por experiências digitais simples, rápidas e personalizadas. Este colaborador moderno compara, mesmo que inconscientemente, as ferramentas do seu local de trabalho com as aplicações que usa no dia a dia: redes sociais, apps de streaming, marketplaces, etc.

Segundo dados da Gallup, mais de 70% dos millennials reportam frustração quando confrontados com plataformas empresariais desatualizadas. E a Salesforce reforça: 80% dos decisores esperam experiências digitais ao nível do consumidor final, o que só acentua a discrepância entre expectativas e realidade dentro das próprias empresas.

O erro está normalmente na mentalidade, não na tecnologia. Mais de duas décadas em transformação digital confirmam-me o que aparenta ser evidente: existe um problema de mindset. As ferramentas internas continuam a ser vistas como meros instrumentos operacionais ou centros de custo. O foco raramente está na experiência do utilizador interno e da sua produtividade. É aqui que a transformação começa a falhar.

Uma interface bonita, mas pouco eficaz, não é sinónimo de modernidade, produtividade e eficiência. A experiência tem de ser funcional, intuitiva e personalizada. Tem de acrescentar valor. A boa tecnologia é aquela que desaparece para o utilizador e multiplica o valor para o negócio. É invisível. Simplesmente se sente distinta.

A usabilidade, personalização e automação são um novo padrão. Acredito que aos dias que correm qualquer ferramenta empresarial deve garantir três pilares essenciais:

1. User Experience (UX): interfaces simples e fluidas, que respeitem a lógica de quem realmente executa as tarefas no terreno

2. Personalização: mostrar apenas o que é relevante para cada função, departamento ou perfil, evitando o ruído informativo

3. Automação inteligente: com notificações contextuais, criação automática de tarefas, bots de apoio e fluxos que se ajustam à realidade operacional da empresa

Estas características não são luxos, mas sim um novo mínimo denominador comum. O colaborador quer agilidade, não burocracia. Quer foco, não complexidade. Quer menos atrito, mais produtividade

Quando a experiência digital é bem pensada, os resultados são claros: menos erros, maior autonomia, menor curva de aprendizagem e equipas mais satisfeitas. Ferramentas bem desenhadas tornam-se extensões da equipa. O impacto é mensurável: redução do tempo de execução, retenção de talento e maior capacidade de adaptação.

A transformação começa dentro de casa, porque a experiência interna é realmente uma vantagem competitiva, mas também uma questão de sobrevivência. As empresas que simplificam, personalizam e automatizam os seus sistemas internos estão mais bem preparadas para responder à velocidade do mercado e às exigências de um talento cada vez mais digital.

A transformação digital não começa no consumidor. Começa dentro de portas. Começa no colaborador. E começa, acima de tudo, com a coragem de abandonar a complexidade herdada para construir experiências que realmente fazem a diferença.

Carina Martins, Chief Experience Officer da Connect Digital

Quinta-feira, 17 Julho 2025 12:44


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