A opinião de… Carlos Pereira, da Puxe Negócios

Para quando uma internet sem barreiras? O CEO da Puxe Negócios aborda a questão da acessibilidade web.

A opinião de... Carlos Pereira, da Puxe Negócios

A internet, prodígio tecnológico que desde 1983 tem mudado o mundo, acaba de ultrapassar as quatro décadas de existência. Quarenta anos de inovação, de aproximação, de oportunidades, mas, estranhamente, não de igualdade. Como responsável de uma empresa na área do marketing digital, não consigo deixar de me admirar (e lamentar) o absurdo da situação: após meio século de redes e websites, continuamos, em 2025, a aceitar que a acessibilidade web não seja obrigatória para todos os websites. Onde está, afinal, o sentido de responsabilidade social tantas vezes invocado pelas empresas?

Vamos ao essencial: parece-me inaceitável que um website novo – esteja ele a promover uma grande marca ou uma loja local – possa legalmente ignorar as necessidades específicas de uma franja de pessoas, não menos clientes ou participantes da economia e da sociedade digital. Nenhuma empresa pode, com honestidade, orgulhar-se de ser inclusiva quando o seu canal principal de comunicação com o público é, na prática, uma barreira invisível para quem navega com dificuldades motoras, visuais, auditivas ou cognitivas. De referir que algumas pessoas com incapacidades utilizam ferramentas externas, embora estas ferramentas dependam de websites corretamente estruturados nesse sentido. São exemplos: o leitor de ecrã que não consegue ler uma imagem com significado, se ela não tiver um “alt” descritivo; ou o software de navegação por teclado que não permite aceder a botões, se o website não contiver foco visível ou ordem lógica.

O contraste com o mundo físico é bastante ilustrativo da situação. Atualmente, nenhuma loja se atreveria a abrir portas sem uma rampa de acesso para cadeiras de rodas, sem uma casa de banho adaptada ou sem sinalização adequada. Aliás, ainda que o tentasse, seria judicialmente notificada em pouco tempo, arriscando-se a sanções pesadas e à condenação pública imediata. Foi necessário criar-se legislação imperativa, padrões rigorosos, fiscalização e penalizações – porque, só assim, a sociedade aceitou, finalmente, que ninguém pode ser deixado para trás.

Mas, e na internet? Assistimos a um confortável compadrio entre empresas que não priorizam recomendações de acessibilidade e entidades reguladoras que exercem pouca pressão no sentido da universalidade. As orientações existem, mas, salvo apenas algumas exceções – Banca, Transportes, e-Commerce e serviços do estado –, o seu cumprimento é “aconselhável”, não obrigatório. O resultado está à vista: muitos cidadãos continuam digitalmente barrados de serviços públicos e privados, enquanto as marcas se promovem como socialmente responsáveis em campanhas sazonais.

É hora de dizê-lo sem eufemismos: há uma lacuna de coragem e visão política para mudar este estado de coisas. Não é tecnologia que falta – é vontade, responsabilidade e um mínimo de pressão social e legal. Não existe desculpa para a inação. Investir em acessibilidade não é só uma obrigação ética: é legalmente previsível e economicamente inteligente. As empresas ganham com a inclusão, ampliam audiências, reforçam reputação e contribuem – realmente – para um mundo melhor.

Chegou o momento de exigir o mesmo rigor para o universo digital que há décadas implementámos no mundo físico. Com normas e fiscalização, a acessibilidade web garantirá igualdade de oportunidades no acesso à informação, ao consumo e à cidadania plena. No futuro, a história julgará a nossa (falta de) ação. A internet continuará a cumprir aniversários, mas a celebração verdadeira só chegará no dia em que todas as portas digitais estiverem abertas para todos – sem exceções.

Carlos Pereira, CEO da Puxe Negócios

Quinta-feira, 11 Setembro 2025 10:00


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