Da Black Friday ao Natal, o comércio, retalho e setores a estes ligados entram numa maratona invisível, feita de planeamento, pessoas e precisão. O setor da logística last mile não é alheio a esta realidade e a “peak season”, termo que ganhou lugar, nos últimos anos, no vocabulário das marcas e operadores logísticos, é o momento do ano em que tudo se intensifica. Entre outubro e dezembro, o comércio eletrónico acelera, os volumes duplicam e as expectativas dos consumidores disparam. Para quem trabalha na distribuição, estes três meses são uma verdadeira prova de resistência, planeada ao milímetro e vivida ao segundo.
A nossa própria realidade interna espelha esse pico. O número médio de estafetas na rua aumenta cerca de 20% durante o último trimestre do ano. Mas o reforço operacional é apenas a face mais visível de uma organização que se estende a todas as áreas: atendimento, armazéns, planeamento e suporte técnico. Em algumas marcas, o volume de encomendas chega mesmo a duplicar, e o período mais intenso concentra-se nas duas primeiras semanas de dezembro, a verdadeira corrida para fazer “check” na lista de presentes de Natal.
Se há uns anos o esforço se concentrava nas grandes cidades, hoje o cenário é totalmente diferente: o aumento da procura é transversal a todo o país. Do interior ao litoral, do Algarve ao Minho, todas as regiões sentem o impacto de um consumidor mais digital e de uma oferta cada vez mais descentralizada.
Mas a pressão da “peak season” não se resolve apenas com mais estafetas nas ruas. Exige meses de planeamento e flexibilidade. A frota adicional também tem de ser adquirida e estar pronta para ir para a estrada. As rotas são otimizadas digitalmente para equilibrar tempo, distância e carga, e os turnos são ajustados com base em dados em tempo real. Cada entrega é uma peça de um puzzle maior, que só funciona quando todos os elos estão alinhados: motoristas, carros, equipas de apoio, sistemas de monitorização e comunicação contínua.
Ainda assim, o verdadeiro desafio pode ser invisível: manter a qualidade e os tempos de entrega num contexto de procura extrema. A gestão em tempo real permite reagir rapidamente a imprevistos — trânsito, condições meteorológicas, ruturas de stock — e reajustar operações em direto. É um trabalho constante de coordenação e adaptação, onde tecnologia e proximidade humana caminham lado a lado.
Mas há três lições importantes que este último momento do ano deixa ao setor. A primeira é que a agilidade operacional depende cada vez mais da capacidade de previsão, e aqui entra a tecnologia. A utilização de dados e algoritmos de planeamento permite antecipar fluxos, redistribuir recursos e reduzir custos num ambiente de elevada incerteza. A segunda é que a coordenação entre retalhistas e operadores logísticos é essencial: partilhar previsões de vendas e calendários de campanhas permite suavizar picos e otimizar os recursos. Por fim, há uma lição estrutural: a experiência do cliente também conta com o momento da entrega. Num mercado onde os prazos são cada vez mais curtos, o last mile é a linha que separa uma boa experiência de uma perda de confiança numa marca.
Mais do que um teste operacional, a “peak season” é um espelho do que o setor é capaz de fazer quando tecnologia, planeamento e pessoas trabalham juntos em verdadeira sintonia. Por detrás do clique que cada um de nós faz quando conclui uma encomenda, há centenas de decisões e de profissionais que tornam possível o que muitos consideram garantido: receber a sua encomenda a tempo de viver a magia do Natal.
Francisco Castanheira, CEO da Delivery Express

