À medida que as redes sociais continuam a tornar-se parte integrante da nossa vida, é preciso entender o que estas plataformas realmente são para nós. Para muitos, o Instagram é um espaço para contactar com os amigos, manter-se atualizado com as últimas tendências e encontrar algum entretenimento rápido. No entanto, o Instagram possui características bastante similares com um “não-lugar”, conceito do antropólogo francês Marc Augé. Mas o que é que significa uma plataforma de redes sociais ser um não-lugar e qual a importância disso?
Augé define os não-lugares como espaços por onde os indivíduos passam, mas não desenvolvem ligações ou identidades significativas. Exemplos de não-lugares incluem supermercados, aeroportos e autoestradas, espaços onde as interações são ditadas por sinais e símbolos. Num aeroporto, navegamos lendo os painéis de partidas; num supermercado, lemos os sinais para encontrar os produtos de que precisamos. Não existe uma ligação pessoal ao espaço e o nosso envolvimento com o que nos rodeia é mínimo.
O Instagram tornou-se um espaço pelo qual as pessoas passam sem se envolverem verdadeiramente. Fazem scroll, gostam e comentam, mas nenhuma destas ações parece incitar algum tipo de envolvimento significativo. Tal como num aeroporto, onde nos deslocamos do ponto A para o ponto B sem desenvolver uma verdadeira conexão ao local, o Instagram serve um objetivo semelhante: uma experiência transitória e esquecível, sem grande profundidade emocional.
Esta perspetiva levanta questões importantes sobre como concebemos e interagimos com espaços digitais. A Lei dos Serviços Digitais da Comissão Europeia é um dos quadros regulamentares concebidos para abordar os impactos sociais das plataformas digitais. Mas, para além da regulamentação, temos de nos perguntar que tipo de espaços online queremos criar. O problema não é o facto de o Instagram ou outras plataformas sociais serem ou não intrinsecamente más – é o facto de serem pouco adequadas para promover uma ligação humana genuína. Embora permitam e incentivem a comunicação, o formato carece frequentemente de profundidade. Tal como os aeroportos e os supermercados são espaços essenciais, embora emocionalmente pouco gratificantes, talvez o Instagram esteja a tornar-se num tipo de necessidade semelhante – útil, mas sem qualquer sentido de comunidade ou de pertença.
Então, qual é a alternativa? A resposta pode estar na conceção intencional de espaços online que promovam interações mais profundas e significativas. Embora possa ser irrealista esperar que todas as interações sociais sejam profundas, são necessários ambientes digitais que incentivem relações genuínas – espaços que promovam a intimidade, o apoio emocional e ligações duradouras. Estes espaços poderiam constituir um antídoto para a superficialidade que é tão característica das redes sociais atualmente.
É evidente que a digitalização da sociedade vai continuar e as nossas interações com plataformas como o Instagram vão permanecer. Vale a pena discutir como podemos criar espaços digitais que nos ajudem a construir relações sociais mais significativas. Os decisores políticos, os criadores de plataformas e os utilizadores têm um papel a desempenhar para garantir que os locais virtuais onde passamos tanto tempo não sejam apenas convenientes, mas também valorativos.
Luiza Ribeiro Haddad, candidata a PhD na Nova SBE

