“Qualquer um pode fotografar, já não são precisos conhecimentos de fotografia.” A frase de George Eastman, que citei num artigo anterior, aplica-se hoje com uma ironia renovada. Se antes a democratização significava acesso à técnica, hoje significa acesso à alucinação: a Inteligência Artificial (IA) permite criar realidades que nunca existiram com um simples comando de texto.
Até ao advento da imagem digital, as fotografias eram capturadas em rolos e chapas de grande formato, selecionadas por editores e distribuídas fisicamente. Existia uma curadoria humana e uma presunção de verdade na imagem. Com a digitalização, a pós-produção e a manipulação via software quebraram esse contrato de confiança. No final da década de 2010, surgiram tentativas de regulamentação, como a sugestão de um “selo de veracidade” para indicar o grau de alteração da realidade. Lembro-me do caso do fotógrafo premiado pela crise imobiliária que perdeu o galardão por admitir ter adicionado folhas secas numa cena, ou da rígida política da Associated Press (AP) que passou a exigir ficheiros RAW como prova forense da autenticidade.
Contudo, entrámos agora num novo ciclo de modas visuais impulsionado precisamente pelo excesso de perfeição tecnológica. Em 2026, vivemos um paradoxo fascinante: quanto mais a IA nos oferece imagens tecnicamente impecáveis, mais valorizamos a falha, o grão e o acidente.
A IA tornou-se a nova “câmara escura” do século XXI, capaz de gerar cenários de verão perfeitos, peles sem poros e luzes ideais. Mas é exatamente essa capacidade de gerar um “verão sintético” que está a alimentar a procura desesperada pelo real. As tendências atuais apontam para uma rejeição da nitidez clínica. O grão do filme, as cores desbotadas, o flash direto que cria sombras duras e até a baixa resolução das câmaras descartáveis voltaram a ser desejados não por nostalgia cega, mas como certificados de humanidade. Se a imagem tem ruído, se está ligeiramente desfocada ou se tem uma exposição “errada”, o nosso cérebro lê isso como: “isto foi tocado por um humano, isto aconteceu de verdade”.
Este movimento espelha o que aconteceu entre a pintura e o nascimento da fotografia: quando o registo realista passou a ser executado mecanicamente pela fotografia, a pintura libertou-se para abordar assuntos mais abstratos da arte. Hoje, a fotografia reage à IA refugiando-se na sua própria humanidade imperfeita.
É neste contexto que a fotografia vernacular ganha um novo e poderoso estatuto de resistência cultural. O termo, cunhado originalmente para descrever a fotografia comum, quotidiana e funcional — aquela feita por pessoas anónimas sem ambição artística, mas com o propósito íntimo de documentar a vida — assume hoje uma dimensão quase militante. Historicamente, são as imagens de álbuns de família, os registos de férias, as festas de aniversário, a compra da primeira casa ou do carro novo: o “para mais tarde recordar” que constituía a memória visual das famílias.
Durante décadas, estas imagens foram consideradas menores, ignoradas pelos museus e pela crítica, que privilegiavam a fotografia de autor ou jornalística. No entanto, em 2026, essa “fotografia de amador” torna-se o antídoto perfeito contra a produção em massa de IA. A sua força reside exatamente na ausência de intenção estética calculada: o enquadramento torto, o dedo que tapa parcialmente a lente, o flash estourado no meio
do dia, a expressão facial apanhada desprevenida. Estes “erros” são, na verdade, a assinatura da presença humana. Ao recuperar a estética vernacular — seja através de câmaras descartáveis, filmes antigos ou aplicações que simulam essas imperfeições —, não estamos apenas a fazer uma escolha estilística; estamos a validar a nossa própria experiência quotidiana como digna de ser registada, sem a necessidade de a transformar num espetáculo digital perfeito. Fotografar o verão com este olhar é afirmar que a memória pessoal, crua e não editada, tem mais valor do que qualquer realidade gerada por um algoritmo.
Estamos, portanto, num movimento pendular. A tecnologia empurrou-nos para o abismo da imagem perfeita e artificial, e a cultura, em resposta, puxou-nos de volta para a textura, o erro e a emoção do analógico. No verão de 2026, a maior tendência não é a ferramenta que usamos, mas a intenção por trás dela: usar a fotografia não para criar uma realidade alternativa via IA, mas para ancorar a nossa existência num mundo que, felizmente, continua imperfeito. A imagem do futuro, ironicamente, tem a cara do passado.
Pedro Rodrigues, coordenador da pós-graduação em Fotografia e New Media do IADE

