A liderança sustentável começa muito antes da estratégia. Começa no lado de dentro.
Durante muitos anos confundimos liderança com resistência. Resistência física, emocional, mental. Fomos normalizando a ideia de que quem ficava até mais tarde era mais comprometido, de que quem nunca parava era mais forte. E, quase sem perceber, passámos a olhar para a pausa como sinal de fragilidade.
Este modelo não surgiu por acaso. Foi aprendido, herdado, reforçado. Crescemos profissionalmente a ouvir que liderar era competir, chegar primeiro, não falhar, não parar. Que o descanso vinha depois. Que o equilíbrio era um prémio reservado para quando tudo estivesse conquistado. Mas esse momento raramente chega. Ou, quando chega, não traz o alívio prometido.
Ao longo da minha experiência em diferentes mercados internacionais, alguns deles particularmente exigentes, percebi que o ritmo acelerado não pertence a uma geografia específica. Em muitos contextos, os dias começavam muito cedo e terminavam já noite dentro, com decisões críticas e pouco espaço para erro. Nesses momentos, liderar nunca foi apenas exigir resultados. Foi saber ler onde estavam as pessoas, perceber o que realmente as movia e, a partir daí, decidir quando proteger e quando confiar.
A intensidade faz parte do jogo e nunca foi um problema. Problema foi ausência de consciência.
Nenhum líder chega “limpo” ao seu papel. Quem acredita estar imune engana-se. Cada um de nós carrega histórias, crenças, medos e experiências que moldam a forma como lidera. Levamos connosco a educação que tivemos, os exemplos que vimos, as feridas que nunca foram verdadeiramente olhadas e as validações que continuamos, muitas vezes, a procurar.
Tudo isso entra connosco na sala de reuniões. Entra a necessidade de provar valor. O medo de falhar. A dificuldade em delegar. A urgência em controlar. A confusão entre ser necessário e ser importante. Entre liderar e ser indispensável.
Vivemos também num tempo de fuga permanente. Fuga do silêncio, do desconforto, de nós próprios. Preenchemos tudo com ruído, velocidade e urgência. Existe quase sempre uma explicação externa para um desconforto interno: o mercado, o contexto, o timing, os outros. Raramente paramos para perguntar o que é que esta experiência está a pedir para ser vista.
A liderança amplifica aquilo que ainda não resolvemos.
Um líder inseguro tende a controlar mais do que precisa.
Um líder cansado transforma quase tudo em urgência.
Liderar em contextos duros não exige desumanização. Pelo contrário. Quanto mais exigente o ambiente, maior a necessidade de maturidade emocional.
A liderança sustentável não é uma tendência. É uma necessidade. Num mundo em aceleração constante, a verdadeira vantagem competitiva será cada vez mais a capacidade de estar presente, de escolher com clareza e de liderar sem fugir de si próprio.
Porque liderar até quebrar não é liderar.
É apenas adiar um encontro inevitável com nós mesmos.
Tânia Sousa Jardim, Chief Marketing Officer do Grupo Refriango

