#ALenteDe Bruno Ferreira é dupla

Bruno Ferreira cresceu a ver o pai filmar e editar filmes de casamentos e batizados, de VHS para VHS. Recorda que “eram horas e horas naquele trabalho de paciência”. Naturalmente, via muitos filmes em casa, muitos deles “às escondidas, atrás de uma poltrona”, porque lhe diziam que não era para a sua idade: “Isso deixava-me ainda mais curioso.”

#ALENTED’o Bruno Ferreira é dupla

Foi, pois, uma infância com muito cinema, mas a grande motivação para o estudar chegou mais tarde. Começou a trabalhar na indústria muito cedo: “Fiz de tudo, de assistente de produção a assistente de realização, mas sabia que tinha a realização sempre cá dentro a mexer”, partilha. O “bichinho” falou mais alto e levou-o a arriscar, primeiro um empréstimo bancário, depois a mudança para Nova Iorque. Arriscar compensou, ao ponto de afirmar, sem hesitar: “Ainda acho que foi a melhor decisão da minha vida.”

Na “cidade que nunca dorme” ganhou rapidez e praticidade de técnicas de realização. Além de, “obviamente, ser uma cidade naturalmente inspiradora, com uma vibração constante, onde tudo se movimenta a uma velocidade avassaladora”. Mas Lisboa é outro mundo: “Tem a poesia e um ritmo muito próprio, tem a luz sempre certa e é uma cidade que evoluiu na sua Arte, com muita música e muito cinema novo e inspirador.”

Apesar da paixão, o cinema não ocupa em exclusivo a lente do realizador da Casper Films. Deu um passo “bastante orgânico” até à publicidade, que diz adorar fazer, tal como adora fazer cinema. Sem preconceitos: até porque a publicidade lhe permite acesso a filmar com muita frequência. “E isso para mim é o mais importante”, comenta. É “estar constantemente a treinar o olho, a usar novas técnicas e, mais importante do que tudo, dar oportunidade a pessoas que estão a começar e que podem ter na publicidade uma rampa de lançamento para desenvolver as suas qualidades”. 

Não tem dúvidas de que a realização pode fazer toda a diferença numa campanha. Mas, como se fosse um pau de dois bicos, pois tanto pode elevar uma campanha como a pode destruir. Isso não o impede de ter uma visão clara do caminho: “Devemos ser honestos e briosos. Devemos dar tudo o que conseguirmos para fazer um bom filme, que respeite a ideia e os criativos. E, acima de tudo, que orgulhe o cliente.”

Ainda que sejam dois amores, cinema e publicidade proporcionam-lhe experiências distintas. “Quando faço cinema, estou completamente livre, só obedeço à minha cabeça e ao meu coração. Na publicidade, dá-me imenso prazer o desafio de haver uma espécie de regras que não devem ser quebradas, é meio um quebra-cabeças cinematográfico e isso é interessante e cativante”, descreve.

São dois olhares, duas lentes, mas não opostos. “Em comum, têm a equipa que nos suporta. Isso é certo. Sem equipa não há realizador nem filme. Esse olhar é comum aos dois mundos”, identifica, dando conta de que, no cinema, se refugia mais nas experiências pessoas e no processo autoral, que lhe dá “outra energia e motivação”. 

E termina, num registo intimista: “Não sei se filmarei publicidade até morrer, mas estou certo de que farei cinema até esse dia chegar”. 

 

Fátima de Sousa

Terça-feira, 07 Março 2023 12:50


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