Briefing | A BYD nasceu em 1995, inicialmente como fabricante de baterias. Como é que essa origem moldou o ADN da marca até hoje?
Pedro Cordeiro | A marca nasce, em 95, com baterias recarregáveis. Esse é o ADN da marca, que foi evoluindo e desenvolvendo essa área de atividade com a incorporação dessas mesmas baterias recarregáveis em telemóveis – telemóveis esses que também chegaram à Europa e que foram utilizados por todos nós. Esse ADN das baterias é o das viaturas elétricas e, por isso, em 2003, cria a divisão Auto e, dois anos depois, lança a primeira viatura. Em 2008, houve outro marco muito importante, que foi o lançamento do primeiro PHEV [Plug-in Hybrid Electric Vehicle] – uma produção em massa mundial. Desde aí, a BYD continua a ter uma evolução contínua, desenvolvendo-se maioritariamente na China, sendo que, nos últimos anos, decidiu alargar essa presença numa perspetiva mundial – América Latina, Austrália, Nova Zelândia e Europa (desde 2022).
O que diferencia a BYD das outras marcas chinesas que estão a entrar no mercado europeu?
A BYD é a número um mundial, é o player número. E o que leva a isso!? Atualmente, tem cerca de um milhão de colaboradores e 10 % dessa massa é R&D [Investigação & Desenvolvimento], ou seja, 100 mil pessoas trabalham na área de desenvolvimento. Portanto, isto, só por si, leva ao registo de patentes da parte tecnológica que diferenciam a marca.
Outro dos fatores é que o facto de ter este ADN ou esta capacidade de desenvolvimento, tem o domínio da cadeia de valor, ou seja, desenvolve com os seus engenheiros os próprios motores elétricos. É toda uma estratégia vertical, porque começa por desenvolver as baterias elétricas, passa pelos semicondutores, tem os motores elétricos, etc. – como costumamos dizer, só os pneus e os vidros é que não são BYD, porque tudo o resto é fabrico in-house, com propriedade intelectual registada/patenteada BYD. Isso é claramente uma enorme diferença de todos os outros fabricantes. Nomeadamente nas baterias, é uma grande fabricante e um dos três players mundiais de baterias. E é a número um nas tecnologias dos Energy Vehicles, o que lhe dá essa capacidade de fornecer essas mesmas baterias a outros fabricantes. Com esse crescimento de escala, tem o domínio mundial atualmente.
Como avalia o desempenho da BYD no mercado português, desde a sua entrada?
É muito bom! O que posso dizer é que está a correr muito bem. Lançámos a marca em maio de 2023 e, desde aí, tem sido um crescimento exponencial. Multiplicámos por sete o número de vendas no ano passado versus 2023 – de 460 para quase 3200. E este ano, agora sim, o segundo ano completo de operação em crescendo, vamos duplicar o número que fizemos no ano passado.
Somos a marca que mais cresce no mercado nacional – acima dos 120 % –, portanto, continuamos em linha com o crescimento avassalador que a própria marca tem a nível mundial. Mas especificamente aqui em Portugal, estamos também no pelotão da frente nessa velocidade europeia.
Quais são as particularidades do consumidor português face a outros mercados europeus?
Em relação à Europa, diria que há alguma similaridade. Portugal tem é um nível mais avançado ou, pelo menos, está também no pelotão da frente na adoção da mobilidade elétrica – houve um conjunto de fatores que levaram a que isso fosse possível, como é o caso dos carregadores, em que se começou a investir numa estrutura e, obviamente, isso ajudou.
Portugal, normalmente, reage bem. É um país pequeno, o que facilita essa adoção da mobilidade elétrica: arranca bem, adota bem e depois tende a estagnar, a esmorecer – questões políticas ou não; e alguém começa muito rápido, mas depois troca-se muito rapidamente também e perde-se a pessoa/a visão/as equipas/a legislação. Isto para dizer que começou bem, esteve bem, liderou – esteve mesmo no top 5 em termos de velocidade de adoção –, caiu qualquer coisa, voltou a aumentar…
Agora, o País vale 20 % em termos de elétricos – na Europa, valem 15 % – e com os híbridos plug-in somados, vale 33 % do peso. Eu diria que o posicionamento é similar àquilo que é a Europa, mas até um bocadinho mais ávido por tecnologia e pela mobilidade elétrica.
No que respeita ao branding e à comunicação, existem diferenças no País em relação a outros mercados?
É uma boa questão! Existe alguma diferença, porque estamos a falar de uma marca com um milhão de colaboradores, entre eles 100 mil engenheiros, portanto, se pensarmos num gigante que tem de deslocar estas equipas para fazer uma implementação, por exemplo, no continente europeu – que tem uma realidade super diversa a nível cultural, linguístico e geográfico –, é difícil. Em Portugal, depois de se ler todo o ADN da BYD e perceber quais eram as diretrizes principais, traçou-se uma linha de comunicação de posicionamento de marca em linha com isso, mas adaptada ao nosso mercado. E o mercado português é um pouco mais premium, ou seja, apresenta uma segmentação de marcas premium que se posiciona no topo da tabela de vendas – ainda que o salário mínimo não corresponda.
Atendendo a isto tudo, e ao facto de a BYD também ter esse ADN de “premium accessible” – começou por ser um dos slogans do posicionamento de marca –, houve um adaptar à realidade portuguesa. O premium accessible, a componente forte tecnológica, a componente forte de sustentabilidade… Isto tudo foram temas pilares para comunicar a marca no País.
O ecossistema BYD é grande, não é só a divisão Auto. Tem baterias, acumuladores para grandes empresas e indústria, painéis fotovoltaicos, ferrovia e camiões. Isto existe tudo na China, mas virá também para a Europa.
*Esta entrevista pode ser lida na íntegra na edição impressa de novembro de 2025
Carolina Neves

