Briefing | É o primeiro português a conquistar o título de Master of Wine. O que significa chegar a este momento e o que foi mais difícil ao longo do caminho?
Tiago Macena | Foi, acima de tudo, a concretização de um objetivo que me acompanhou durante muitos anos e que exigiu muito mais do que conhecimento técnico. Foi um percurso de persistência, disciplina e aprendizagem constante, mas também de humildade, porque quanto mais estudamos vinho, mais percebemos a dimensão daquilo que ainda temos para aprender.
O mais difícil foi conseguir manter a consistência ao longo de tantos anos, conciliando o estudo com a atividade profissional e a vida pessoal. O vinho é uma área muito abrangente, que cruza viticultura, enologia, análise sensorial, mercados, cultura e negócio. O desafio não era apenas saber mais, mas conseguir relacionar todo esse conhecimento, pensar criticamente e fundamentar cada conclusão.
Ser o primeiro português a alcançar este título tem, naturalmente, um significado especial, ainda que nunca tenha sido esse o motivo do meu foco. Espero que possa contribuir para dar maior visibilidade ao vinho português no contexto internacional e demonstrar que Portugal tem conhecimento, talento e capacidade para participar ativamente na discussão global sobre o setor.
Começou o programa em 2012, interrompeu-o e regressou em 2017. O que o levou a insistir num objetivo tão exigente? E como conseguiu conciliar os estudos com a vida profissional e pessoal?
A vontade de compreender o vinho de forma mais profunda e abrangente foi sempre o principal motor. Queria sair da minha zona de conforto, confrontar o meu conhecimento com outras realidades e desenvolver uma visão internacional do setor. O programa do Institute of Masters of Wine representava esse desafio.
A interrupção fez parte do percurso, e permitiu-me regressar com outra perspetiva e maturidade. Quando retomei os estudos, em 2017, tinha uma noção mais clara da exigência do caminho e do compromisso necessário para o percorrer.
Conciliar tudo obrigou a uma grande capacidade de organização e a fazer escolhas. A atividade profissional não parava; e o estudo exigia tempo, concentração, e disponibilidade para provar vinhos, ler, escrever e preparar exames. Não existe uma fórmula perfeita para equilibrar todas estas dimensões. Existe, sim, a necessidade de estabelecer prioridades, trabalhar com método e aceitar que um objetivo desta natureza tem impacto na vida quotidiana. O apoio das pessoas que nos acompanham é também fundamental.
O processo inclui provas teóricas, exames práticos com prova cega e um trabalho de investigação. Qual destas etapas foi mais desafiante?
As três componentes são exigentes, mas de formas diferentes. A parte teórica obriga a dominar uma enorme quantidade de informação, e a compreender as relações entre viticultura, produção, regiões, mercados e tendências. A prova cega exige capacidade de observação, método e raciocínio sob pressão. A investigação, por sua vez, obriga a formular uma pergunta relevante, trabalhar a informação com rigor e chegar a conclusões sustentadas.
A componente prática foi particularmente desafiante pela necessidade de transformar a análise sensorial num raciocínio estruturado e comunicável. Não basta identificar um vinho ou reconhecer uma casta: é necessário explicar as evidências que sustentam essa leitura e demonstrar que se compreende o contexto em que o vinho foi produzido.
Houve momentos de dúvida e frustração, como seria natural num processo tão longo. O exame prático foi uma etapa particularmente importante do percurso, tendo sido superado em 2023, antes da conclusão da investigação. Aprendi que um resultado menos conseguido não tem de definir o desfecho. É preciso perceber o que falhou, trabalhar sobre isso e voltar a tentar. A persistência, neste contexto, não significa repetir sempre o mesmo, mas saber evoluir.
Na prova cega, é preciso identificar e contextualizar vinhos de diferentes origens sem conhecer previamente o que está no copo. Como se treina essa capacidade? E o que distingue o paladar de um Master of Wine do de um profissional experiente?
A prova cega treina-se com muita prática, exposição a vinhos de diferentes origens e estilos, comparação sistemática e, sobretudo, reflexão sobre aquilo que se prova. É importante desenvolver referências sensoriais, mas também compreender como o clima, os solos, as castas, as técnicas de vinificação e a idade influenciam o resultado no copo.
Um aspeto essencial é aprender a separar a observação da interpretação. Primeiro, procuramos descrever objetivamente o vinho: a sua estrutura, acidez, taninos, aromas, equilíbrio e evolução. Depois, formulamos hipóteses sobre a origem, as castas, o método de produção e a fase de vida em que se encontra. Por fim, avaliamos essas hipóteses à luz das evidências.
Não diria que um Master of Wine tem necessariamente um paladar melhor do que qualquer outro profissional experiente. Há enólogos, produtores e provadores extraordinários que não têm este título. A diferença está sobretudo na sistematização do conhecimento, na amplitude das referências, e na capacidade de construir um argumento coerente, identificar incertezas e justificar conclusões. A prova cega não é um exercício de adivinhação: é um exercício de raciocínio aplicado ao vinho.
Carolina Neves
*Esta entrevista pode ser lida na íntegra na edição impressa B203

