“Passei a pensar ‘o que é que eu quero construir?'”

Entre a representação, a criação de conteúdos e o empreendedorismo, Catarina Gouveia foi alargando o seu percurso profissional para diferentes áreas. Nesta entrevista, fala sobre a sua marca Pura, as escolhas que faz nas parcerias e a importância de construir projetos com identidade própria, defendendo que “empreender não é fazer mais, é saber escolher”.

"Passei a pensar 'o que é que eu quero construir?'"

Briefing | Ao longo dos anos, deixou de ser apenas atriz para se afirmar também como criadora de conteúdos e empresária. Como gere hoje estas diferentes dimensões da sua marca pessoal?

Catarina Gouveia | Acho que, hoje, ser atriz, criar conteúdos e ser empresária são diferentes expressões da mesma marca pessoal: a minha identidade, os meus valores e a forma como escolho comunicar.

A representação deu-me uma ferramenta fundamental, a capacidade de contar histórias, interpretar pessoas e de comunicar emoções. A criação de conteúdos trouxe-me uma relação muito mais direta, espontânea e honesta com a audiência; e uma liberdade criativa que valorizo imenso. E o lado empresarial ensinou-me a transformar essa influência em projetos com propósito, visão e sustentabilidade.

Hoje, faço uma gestão muito consciente daquilo a que associo o meu nome. Para mim, uma marca pessoal forte não se constrói por estar em todo o lado, mas por haver coerência em tudo aquilo que se faz. E é assim que procuro estar. Prefiro que exista uma linha condutora entre os diferentes projetos do que tentar encaixar-me numa única definição.

No fundo, deixei de pensar “o que é que eu faço?” e passei a pensar “o que é que eu quero construir?”. E essa mudança de perspetiva foi talvez a mais importante na evolução da minha marca pessoal.

Numa altura em que muitos criadores de conteúdos procuram lançar negócios próprios, a Catarina criou a Pura há três anos. O que tem aprendido sobre gestão de marca e empreendedorismo?

A Pura ensinou-me, sobretudo, que criar uma marca é muito diferente de criar um produto. Há uma distância enorme entre ter uma boa ideia e conseguir construir uma empresa sustentável à volta dela. E aprendi isso de uma forma particularmente desafiante porque escolhi fazê-lo no setor têxtil em Portugal, onde existe uma indústria extraordinária, mas no qual uma marca pequena enfrenta desafios muito concretos: quantidades mínimas de produção; custos de matéria-prima; mão de obra; confeção; logística; e toda uma estrutura de produção que não consegue competir, em preço, com o modelo do fast fashion e com produtos fabricados em mercados de muito baixo custo, nomeadamente na Ásia. É uma concorrência que considero interessante porque não estamos necessariamente a disputar o mesmo produto, estamos a disputar a perceção de valor e, sobretudo, o tempo e o perfil do consumidor. Sinto que ainda é difícil explicar porque é que uma peça produzida em Portugal, com uma matéria-prima de qualidade e uma cadeia de produção mais responsável, custa várias vezes mais do que uma peça produzida em massa. Mas acredito que é precisamente aí que uma marca como a Pura tem de ser mais forte: não tentar ganhar pela quantidade ou pelo preço, mas pelo significado, pela qualidade e pela longevidade.

A maior aprendizagem foi talvez esta: empreender não é fazer mais, é saber escolher. Escolher o que produzir, quanto produzir, onde investir, com quem trabalhar e, sobretudo, aquilo a que estamos dispostos a dizer não. A Pura nasceu precisamente dessa vontade de contrariar o excesso – produzir menos, melhor e com mais intenção.

Como é que se constrói uma marca com identidade própria sem depender exclusivamente da notoriedade da fundadora?

Penso que essa é uma das maiores responsabilidades e desafios de quem cria uma marca a partir da sua própria notoriedade: perceber que a notoriedade pode ser o ponto de partida, mas nunca pode ser o produto.

A minha imagem pode gerar curiosidade, trazer público até à Pura e dar-lhe uma primeira visibilidade. Mas, depois dessa primeira porta de entrada, tem de existir uma razão para que o cliente queira ficar. E essa razão tem de estar na própria marca, no produto, na estética, na qualidade, na experiência e nos valores que transmite. Na Pura, desde o início, tentei construir uma identidade que pudesse existir para lá de mim. Uma pessoa pode conhecer a Pura através da Catarina, mas deve conseguir apaixonar-se pela Pura sem precisar da Catarina. Para mim, esse é o verdadeiro teste. E isso implica também ter disciplina para não transformar tudo aquilo que faço pessoalmente naquilo que a marca é. 

A minha marca pessoal tem uma dimensão muito mais abrangente. A Pura tem uma linguagem própria, um universo próprio e uma visão muito específica sobre o consumo e a forma como queremos viver.

A marca tem vindo a crescer e a evoluir coleção após coleção. Quais são hoje as principais ambições para a Pura? A internacionalização continua a ser uma prioridade?

A internacionalização faz parte das nossas ambições, sim, mas não como um objetivo de crescimento a qualquer preço. A minha ambição para a Pura é, antes de mais, construir uma marca portuguesa com uma identidade suficientemente forte para ser reconhecida fora de Portugal. Quero que o “made in Portugal” seja valorizado não apenas como origem, mas como parte daquilo que torna a Pura especial.

Estamos num momento em que sinto que a marca tem cada vez mais clareza sobre aquilo que quer ser. E isso permite-nos pensar a internacionalização de uma forma mais estratégica: escolher mercados, parceiros e pontos de venda que façam sentido para o universo da Pura, em vez de simplesmente tentar estar em todo o lado.

Prefiro uma marca mais pequena, mas desejada, consistente e relevante, e que, essencialmente, não perca a sua identidade.

*Esta entrevista pode ser lida na íntegra na B201

Carolina Neves

Segunda-feira, 14 Setembro 2026 12:23


PUB