Há vinhos que se provam. E há vinhos que se contam, quase como uma história que cresce a cada colheita. O Invisível, da Ervideira, pertence claramente à segunda categoria. Na sua 17.ª edição, já não é apenas uma curiosidade técnica nascida de uma casta tinta: é um fenómeno com escala, identidade e, sobretudo, intenção.
“Este projeto começou com nove mil garrafas e vamos, nada mais nada menos, com 180 mil”, começou por afirmar na apresentação o proprietário da Ervideira, Duarte Leal da Costa, sublinhando um crescimento quase obstinado. A ambição não se ficou pela adega, uma vez que já foram necessárias novas vinhas e sucessivas expansões para acompanhar o ritmo. O Invisível deixou de ser uma experiência para se afirmar como um dos grandes protagonistas do vinho português contemporâneo, algo que o próprio produtor sintetiza ao dizer que é hoje o Blanc de Noirs mais vendido do mundo fora de Champagne.
Mas por detrás da leveza no copo existe um exercício técnico exigente. O enólogo da produtora, Nelson Rolo, descreve-o como um verdadeiro puzzle. “É um vinho muito técnico”, construído desde a frescura inicial, com vindimas noturnas e controlo rigoroso de temperatura, para garantir que o Aragonês – uma casta tinta – se revela sem cor, mas cheio de expressão. O resultado é um vinho de 12,5 % de álcool, onde a acidez é espinha dorsal e a elegância, objetivo final.
Essa versatilidade ficou evidente à mesa do Este Oeste, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Do delicado sashimi de lula com miso e citrinos ao intenso carpaccio de novilho com pesto, passando pelo atum Bluefin ou pelo risoto de cogumelos, cada prato parecia testar os limites do Invisível. E era esse o ponto: “O Invisível tem de saber estar à mesa com o peixe, com a carne…”, afirmou Duarte Leal da Costa. Até o wasabi entrou em cena como prova de resistência, e, ainda assim, o vinho mostrou capacidade de adaptação, limpando o palato e reinventando-se a cada garfada.
Se o Invisível é já uma afirmação, o novo espumante Invisível surge como extensão natural e ousada desse percurso. Produzido através do método clássico, com Aragonês e Syrah, e um controlo técnico rigoroso durante a segunda fermentação em garrafa, este espumante reflete uma abordagem quase científica. Nelson Rolo explicou que consegue acompanhar, em tempo real, a evolução dentro de cada garrafa, monitorizando temperatura e pressão. No final, opta por um perfil brut nature, sem adições no licor de expedição.
Para Nelson Rolo, trata-se de um território particularmente estimulante: “O espumante é aquela bebida que me desafia”. Num Alentejo quente, criar um brut nature puro, sem adições no licor de expedição, é mais do que técnica. O que emerge no copo é um espumante de frescura vibrante, onde, nas suas palavras, o que se tem ali “é frescura, é acidez, é muita vida”.
No fim, entre o tiramisu e as últimas conversas, ficou claro que o Invisível não quer roubar protagonismo, mas quer estar presente. Talvez seja esse o seu maior truque: ser invisível… mas impossível de ignorar.
Carolina Neves

