Rádio que marca. Ou de marca?…

 Rádio que marca. Ou de marca?...A tendência de dar o nome de uma marca a uma estação de rádio não tem tido a expressão que, confesso, imaginei pudesse vir a ter. Quando em 2011 a Vodafone e a Media Capital Rádios deram o primeiro passo nesse sentido, imaginei que outras marcas se seguiriam. Talvez a complexidade legal associada ao processo tenha feito demorar outras iniciativas, uma vez que agora se fala de uma eventual rádio para o Benfica.

Se, por um lado, uma estação de rádio detida por uma marca pode trazer benefícios, por outro encerra em si mesma um conjunto de preocupações relativas ao pluralismo e diversidade. Três anos passados, parece-me ser preferível a transparência associada ao nome de uma estação que representa uma marca – e portanto, não esperemos ouvir ali referências aos seus concorrentes, como a TMN ou a Optimus – do que a nebulosa comunicação de alguns órgãos de comunicação, em defesa de interesses económicos nem sempre claros para a audiência.

Na altura, a ERC aprovou a alteração de serviços da Romântica FM a favor da Vodafone FM. Na prática, tratou-se da compra da marca, alterando a sua designação e conteúdo. A gestão comercial e editorial manteve-se a cargo da Media Capital Rádios, que reposicionou a estação, considerando os objectivos da marca Vodafone. Neste processo, a ERC determinou que o logótipo da Vodafone FM fosse diferente do da Vodafone e limitou em 50% do total do espaço comercial à marca, garantindo diversidade de anunciantes.

Não restam dúvidas sobre a reinvenção da rádio aos mais diversos níveis, sendo este, um exemplo que agora poderá repetir-se com o projecto da rádio do Benfica. Ora, sabemos que quando se ventila na comunicação social que algo poderá acontecer, normalmente acontece. Pensemos, portanto nisso. Não tenho dúvidas sobre o potencial desta iniciativa. A rádio liga-se aos ouvintes através dos conteúdos. Futebol é uma temática muito apreciada em Portugal e o Benfica um clube de futebol com, digamos, alguns adeptos (para não ferir susceptibilidades dos adeptos de outros clubes). Não se sabe mais. Ou, pelo menos, eu não sei mais. Não imagino qual seja a eventual frequência a mudar de nome e programação.

Não imagino o que a ERC possa determinar, ou que limitação impor à marca Benfica na gestão dos conteúdos da potencial rádio Benfica. Mas sei que projectos desta natureza não resultam, apenas, da necessidade das marcas se envolverem com o consumidor e de encontrarem canais diferenciadores para comunicarem. É também resultado de um sector sobredimensionado e de uma crise que afecta o mercado publicitário, diminuindo o investimento e estrangulando o funcionamento dos operadores locais. Não sei quantas estações de rádio estão à venda. Mas sei que há muitas com a corda na garganta. Também sei que há procura, por parte de entidades estrangeiras, organizações de natureza variada e marcas, de rádios locais que possam servir os seus propósitos.

O caso da Vodafone FM, pelo que me é dado a perceber, uma win-win situation. Para a marca, que pode comunicar os seus valores e promover as suas acções relacionadas com a música, mantendo parte do seu público-alvo sempre ligado à marca; para a MCR que reposicionou um dos seus canais e se associou a uma marca de notoriedade mundial. Talvez o ganho menor seja para os ouvintes, uma vez que o formato musical foi substituído por outro, igualmente musical, mas que certamente agradará aos interessados num canal de música alternativa. Algo semelhante poderá acontecer para os adeptos do Benfica.

Segunda-feira, 03 Fevereiro 2014 12:27


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