O título diz tudo sobre o estado da eleição americana. Sondagens dentro da margem de erro, num empate perfeito que deixa tudo em aberto para dia 5. Houve um momento-chave, o minuto fulcral, que não permite disparar um vaticínio claro. Esse minuto foi a saída de cena de Joe Biden.
Se ele continuasse, estava agora a alvitrar uma vitoria fácil de Donald Trump, pois era visível (e aquele fatídico debate exibiu a decadência) que o inquilino da Casa Branca não tinha saúde nem presciência para conseguir ser reeleito. O furacão Kamala galvanizou a base eleitoral democrata, deu ânimo e nova esperança, contudo, a onda estancou devido à evidente falta de rumo na sua estratégia.
Temos assim um combate entre a disfuncionalidade e o vácuo. Um homem viciado no seu ego, com discurso de mensagem simples e curta, com a retórica instituída ainda por Steve Bannon que prevê atacar sempre, estar na crista da agenda mediática, por muito que as palavras possam ser grosseiras e antissistema. E uma mulher de “good vibe”, muito sorridente, mas que até agora, se espremermos todo o fruto, vemos que está seco. Isto é, não há ninguém que se lembre de uma ideia da ex-vice-presidente. O que perturbou Barack Obama que não planeava voltar à vida política e o obrigou a percorrer quatro dos “swing states” em sucessivos comícios, uma vez que a sua candidata estava a desfalecer em resultados nas sondagens.
Ambos falam para os seus públicos, sendo que os Democratas tentam convencer indecisos, enquanto Republicanos semeiam no eleitorado motivado e seguro que quase cristalizou em torno de Trump. Enquanto que os eleitores de Kamala esperam alegria face à obscuridade, os do seu rival querem sangue, ferocidade, são mais irascíveis, logo o discurso do ódio é o caldo natural dos seus fãs.
A caça ao voto custará mais de mil milhões de euros, são inúmeros os segmentos eleitorais que têm de ser tocados em campanha. Há um “targeting” profissional de mensagens específicas para mulheres, latinos, afro-americanos e sobretudo um assalto nos ditos “swing states” que terão um peso determinante na configuração do colégio eleitoral. Um dos casos mais interessantes de seguir está na Georgia. Capital, Atlanta, a grande cidade da minoria negra, o voto mais fiel no Partido Democrata. É que desde 1960, curiosamente, os únicos Democratas que ali ganharam foram Jimmy Carter (é o seu estado-natal); em 1992, Bill Clinton; Obama nunca venceu; e Biden em 2020. Ora, pode ser um importante sinal se Kamala ali vencer.
Quanto a novidades de comunicação política, onde a televisão continua a ser o foco preferencial do investimento dos candidatos, a maior surgiu na Convenção Democrata que ungiu Kamala Harris. O show é montado para as televisões, contudo, este ano aconteceu uma aposta fortíssima em “youtubers”, “TikTok”, Instagram, “influencers” que produziram centenas de milhares de conteúdos informativos, somando seguidores, tornando o consumo de notícias completamente diferente e alternativo aos media tradicionais. Aconteceu também o “star power” do costume, sendo que a estrela mais cobiçada foi Taylor Swift que trouxe a sua armada de milhões de seguidores para os braços de Kamala. Em suma, muito barulho por nada, o mundo está em suspenso para ver como dois candidatos se relacionam com ele, mas só há uma evidência: a América merecia melhor.
Rui Calafate, consultor de comunicação e comentador da CNN

