Nos últimos anos, os hábitos de compra e leitura em Portugal têm demonstrado mudanças importantes, refletindo tendências globais e especificidades culturais. Os dados mais recentes, apresentados no evento Book 2.0 de 2024 que teve lugar na Fundação Oriente nos dias 5 e 6 de setembro deste ano, indicam uma evolução positiva no mercado de livros, mas também desafios que precisam ser superados para garantir que a leitura continue a ser uma prática essencial para os portugueses.
Crescimento no Consumo de Livros
Em 2023, 65 % dos portugueses compraram pelo menos um livro, um aumento em relação a 2022, que registava 62 %. O mercado total de livros em Portugal cresceu de 154 milhões de euros em 2019 para 187 milhões de euros em 2023 (de acordo com o painel GfK que cobre 87 % do mercado). Este crescimento revela um renascimento do interesse pela leitura, especialmente entre os jovens, onde a faixa etária dos 15 aos 34 anos representou 41 % dos compradores de livros, um salto significativo face aos 28 % do ano anterior.
No entanto, ao olharmos com mais atenção, há sinais de estagnação ou queda em certas áreas. Por exemplo, apenas 26 % dos compradores de livros aumentaram a quantidade de livros adquiridos em 2023, enquanto 29 % compraram menos* resultando num saldo negativo de 3 %. Esses dados mostram que, embora o número de compradores esteja a crescer, o volume de livros comprados por pessoa ainda enfrenta desafios.
O Desafio dos Formatos e das Livrarias
O formato físico continua a dominar as preferências dos leitores, com 97 % dos livros comprados a serem em papel. O formato digital, embora crescente, ainda representa apenas 10 % das compras.
Este dado reflete uma ligação emocional forte dos portugueses com o livro físico, mas também aponta para uma oportunidade: a necessidade de diversificar formatos especialmente com o crescimento do consumo de conteúdos digitais.
Outro desafio significativo está nas poucas livrarias independentes, que desempenham um papel fundamental na cultura de proximidade. Enquanto as grandes cadeias e plataformas online dominam as vendas, há um apelo para que as livrarias locais sejam protegidas e incentivadas. Isso pode ser feito, por exemplo, através de incentivos fiscais e apoios logísticos que permitam a sobrevivência e o crescimento dessas pequenas lojas que são muitas vezes os únicos pontos de acesso à leitura em várias regiões.
Fatores que Influenciam a Compra de Livros
Os leitores portugueses continuam a ser movidos por três fatores principais na hora de comprar um livro: o tipo de livro (romance, policial, etc.), o preço, e as recomendações. O romance é, de longe, o género mais consumido, seguido pelo policial e thriller, mostrando que a procura por histórias de entretenimento e suspense continua forte.
No entanto, há também aqui informação que tem de ser vista com preocupação: em regiões como o litoral e as Ilhas, registou-se uma quebra significativa na compra de livros — 19 % nas Ilhas e 10 % no litoral.
Estas quebras podem ser atribuídas a mudanças nos hábitos de consumo, a concorrência de outras formas de entretenimento digital e, talvez, à dificuldade de acesso a livrarias físicas.
Como Melhorar o Cenário?
Para garantir que os números do mercado continuem a evoluir positivamente nos próximos anos, **medidas estratégicas e concretas são essenciais**. Aqui estão algumas propostas discutidas no Book 2.0:
- Promoção da Leitura Digital: É essencial continuar a investir na leitura digital, não apenas como complemento, mas como uma alternativa viável para muitos. Isso inclui iniciativas de leitura digital em bibliotecas públicas e campanhas de sensibilização para combater a pirataria, que ainda é um problema grave no país
- Apoio às Livrarias Locais: Incentivos governamentais, como reduções fiscais para novos negócios e acessibilidade a espaços de venda, são cruciais para revitalizar as livrarias locais e independentes, que são essenciais para manter viva a cultura de leitura nas comunidades mais pequenas.
- Educação e Formação de Novos Leitores: A leitura é um hábito que se cultiva desde cedo. Promover programas educativos que incentivem a leitura desde a infância, incluindo programas de leitura em voz alta nas escolas e campanhas de incentivo à leitura para os mais jovens, será vital para criar uma geração de leitores mais críticos e apaixonados.
- Diversificação de Conteúdos: Apostar em conteúdos diversos e em formatos inovadores que consigam captar a atenção de diferentes faixas etárias e perfis socioeconómicos é fundamental. Livros de autoajuda, romances históricos e literatura infantil, todos são necessários, assim como a promoção de novos autores e temas contemporâneos pode ajudar a captar leitores que buscam representatividade e diversidade nas narrativas.
Portugal encontra-se num ponto de viragem no que diz respeito aos hábitos de leitura. O crescimento é visível, mas há desafios estruturais que precisam de ser abordados para garantir que o livro — seja ele em papel ou digital — continue a ser uma peça central no lazer e na educação dos portugueses. O compromisso coletivo de editoras, livreiros, leitores e agentes governamentais será essencial para transformar a leitura num pilar da sociedade, garantindo que o acesso ao conhecimento e à cultura seja universal e democrático.
Pedro Sobral, Chief Publishing Officer do Grupo Leya

