A opinião de… Maria Luís, da Briefing

“As notícias da nossa substituição foram claramente exageradas”. Esta é a visão da Head of Business da Briefing, Maria Luís, que escreve sobre como a inteligência artificial está a ser banalizada e em como se aceita tudo o que ela dá. Para si, já não é diferenciador usar as ferramentas; o diferencial está no que a pessoa acrescenta, seja antes ou depois.

A opinião de… Maria Luís, da Briefing

Eu, fã incondicional da utilização da Inteligência Artificial (IA), confesso-me: ando cheia de dúvidas… E digo isto enquanto pessoa que usa IA todos os dias, para mil coisas diferentes, e que acha genuinamente extraordinário aquilo que conseguimos fazer em minutos. A IA ajuda-me a trabalhar mais depressa, a pensar melhor, a organizar ideias, a alongar como deve ser, a comer melhor e, ocasionalmente, a fingir que tenho a vida muito mais controlada do que realmente tenho.

Mas ando a observar um fenómeno interessante: muito rapidamente, passámos da descoberta para a banalização. A IA deixou de ser ferramenta para passar a ser reflexo automático. E começa a notar-se uma coisa curiosa: toda a gente usa IA para criar… mas começámos todos a desenvolver uma espécie de alergia coletiva ao “ar de IA”. Já sabemos identificar o texto demasiado redondo, demasiado organizado, demasiado correto. Aquele entusiasmo suspeito. As listas perfeitas. As frases inspiracionais que acabam quase sempre por soar a um diretor de recursos humanos muito empenhado.

E depois há outro fenómeno fascinante: sobretudo nas gerações mais novas, vejo uma enorme facilidade em aceitar o primeiro resultado. O que veio, veio bem. Não se puxa mais. Não se afina. Não se desafia. Não se tenta transformar aquilo em algo verdadeiramente nosso. A IA passou a ser menos uma ferramenta de pensamento e mais uma máquina de preguiçaaaaaaaa.

Só que, ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas desvalorizam profundamente conteúdos feitos por IA. “Ah, isso foi feito no ChatGPT”. E a frase já vem dita como quem descobre que a mala é falsa. O que é estranho, porque muitos desses conteúdos são objetivamente bons. Às vezes, excelentes. Então, porque é que existe quase um desprezo automático?

A minha teoria é simples: nós continuamos a valorizar o esforço. Sempre valorizámos.

Uma maratona não impressiona pelos 42 quilómetros. Impressiona porque sabemos o que custa lá chegar. Porque há disciplina, treino, dores, desistências pelo caminho. Se alguém inventasse uma app que corria a maratona por nós enquanto estávamos no sofá a comer batatas fritas, aquilo deixava imediatamente de ser admirável.

Com a IA acontece o mesmo. O resultado perdeu raridade. O esforço perdeu visibilidade. E, sem esforço visível, o nosso cérebro tem dificuldade em atribuir valor emocional à coisa.

Além disso, talvez haja aqui outra camada ainda mais humana do que o esforço: nós gostamos de acreditar no génio. Gostamos da surpresa de uma ideia brilhante que aparece onde ninguém estava à espera. Gostamos da raridade. Da sensação de que existem muitas pessoas boas, algumas muito boas e só um número quase absurdo de reduzido de pessoas verdadeiramente excecionais. É essa hierarquia invisível que dá valor às coisas. Um grande realizador, um grande criativo, um grande escritor ou um grande músico não valem apenas pelo resultado final – valem porque conseguem produzir algo raro, inesperado, quase impossível de replicar. E quando a IA começa a tornar o “excelente” demasiado acessível, mexe com a nossa perceção de mérito. Não porque o resultado seja pior, mas porque deixa de parecer especial.

Por isso, suspeito que estamos a entrar numa fase interessante: aquela em que usar IA já não será diferenciador. O verdadeiro diferencial será o que cada pessoa consegue acrescentar depois disso. Ou antes.

Talvez o verdadeiro desafio dos próximos anos seja exatamente este: o sentido crítico. O pensamento. O critério. O gosto. A capacidade de pegar numa coisa tecnicamente perfeita e dar-lhe humanidade, imperfeição, personalidade. Dar-lhe uma ideia.

Apertem os cintos, que vamos depressa.

Maria Luís, Head of Business da Briefing

Segunda-feira, 18 Maio 2026 11:27


PUB