Logo no arranque, o tom foi dado com uma ideia que poderia soar improvável fora daquele contexto: “As águas, posso dizer que têm terroir”. A analogia com o vinho não foi mero recurso didático; foi, sim, o ponto de partida para uma exploração mais profunda da identidade da água mineral natural. Tal como nas grandes referências vínicas, também aqui há origem, percurso e uma “impressão digital” que se mantém estável ao longo do tempo.
Essa estabilidade, aliás, foi um dos conceitos-chave do workshop. O sommelier sublinhou que “as águas minerais naturais, ao contrário das de nascente, têm uma estabilidade físico-química de composição de minerais estável”, reforçando a ideia de consistência como atributo de qualidade. Um detalhe técnico que, rapidamente, se traduziu em sensações à mesa.
Entre provas e pratos, os participantes foram desafiados a fazer algo pouco habitual: provar água com método. Observar a limpidez, sentir a textura, identificar nuances aromáticas subtis e, sobretudo, perceber como fatores como a temperatura ou a mineralização alteram a perceção. “Vamos olhar para a água não só porque hidrata e faz bem à saúde, mas também integrada numa experiência gastronómica”, explicou.
Foi neste contexto que as diferenças entre Luso e Castello ganharam corpo. A primeira, de baixa mineralização, revelou-se mais suave, quase “aveludada”, com uma leve doçura percecionada. Já a segunda, mais rica em minerais e com gás, trouxe intensidade, “uma textura muito mais estaladiça, e crepitante”, prolongando-se no palato e criando contraste com os sabores dos pratos.
Mais do que procurar harmonizações perfeitas, o exercício privilegiou a descoberta. No fundo, o que este almoço-workshop propôs foi uma mudança de lente: perceber que a escolha da água não é neutra. Pelo contrário, influencia a forma como sentimos sal, gordura, acidez ou frescura. E pode até redefinir a relação com o vinho – por exemplo, se faltar “graça” a um vinho, bebê-lo acompanhado de uma água com gás vai ajudar a puxar pelo sabor; o mesmo acontece ao contrário, com a Água de Luso a ajudar a “domar” os taninos.
A mensagem final foi clara. Como resumiu, com humor, Manuel Moreira: “A partir de agora, aposto que vocês nunca mais bebem água da mesma forma”.
Carolina Neves

