“E novidades?”. É aquela pergunta que fazemos entre amigos, sem pensar muito. Tenho reparado que, quando me cabe responder, o trabalho aparece quase sempre à frente de tudo o resto. Um projeto, uma mudança, uma história que trouxe do escritório. Depois lembro-me de que também tenho… vida.
Não sou a primeira pessoa a apresentar-se através do que faz. A minha geração não inventou a identidade profissional. Mas cresceu a construir-se em público, aos bocados, pela playlist que partilha, pelas causas que abraça, pelas marcas que veste. O trabalho também entra nessa montra. O que fazemos, para quem fazemos e aquilo que estamos dispostos a aceitar, são aspetos que dizem alguma coisa sobre nós.
Talvez por isso me faça confusão a facilidade com que se descreve a Geração Z como indiferente ao trabalho. A geração do portátil na cama, que não quer compromissos e só pergunta pelas férias. Como quase tudo o que se diz sobre gerações, é uma meia-verdade dita com toda a certeza.
Não querer viver para trabalhar não significa desejar passar os dias a fazer uma coisa que nos é indiferente. Se o trabalho vai ocupar uma parte tão grande da nossa vida, pretendemos que essa parte faça sentido.
Penso nele como um acessório de identidade. Acrescenta ao conjunto, diz algo sobre quem o usa, mas não tem de ser o outfit todo. Nem sempre podemos escolher o trabalho que temos, muito menos todas as suas condições. Isso não elimina a vontade de nos reconhecermos nele. Podemos importar-nos com o que fazemos sem que tal nos engula.
E o lugar onde trabalhamos faz parte dessa relação.
Durante demasiado tempo, pensámo-lo como um «objeto», constituído por metros quadrados, secretárias, número de lugares. Uma coisa que se arrenda, equipa e preenche. As pessoas chegavam depois, como se bastasse distribuir cadeiras para que cada qual encontrasse o seu lugar.
Só que um espaço de trabalho nunca é neutro. Há escritórios onde pedir ajuda é fácil e outros onde uma porta fechada parece uma fronteira. Há salas que convidam à conversa e locais onde qualquer conversa interrompe vinte pessoas. Há empresas que dizem confiar nas equipas e depois organizam o dia inteiro com o intuito de as ter sempre à vista.
Tudo isto comunica. Às vezes, com mais clareza do que os valores escritos na parede.
Trabalho numa empresa que pensa em espaços de trabalho todos os dias, por isso também olho para este tema a partir de dentro. E quanto mais penso nele, menos sentido me faz separar o espaço daquilo que uma empresa diz ser. Se uma marca se constrói em cada contacto, o escritório é uma experiência diária dessa marca para quem lá trabalha.
Não se resolve essa relação com um logótipo na receção, uma frase inspiradora em néon ou mais uma mesa de matraquilhos que ninguém pediu. Isso pode decorar o vazio. Não chega para criar pertença.
A diferença está em fatores bem menos fotogénicas. Como, conseguirmo-nos concentrar, sentirmo-nos à vontade para fazer uma pergunta, ter onde conversar sem incomodar, perceber que alguém pensou nas diferentes formas de trabalhar antes de escolher o mobiliário.
O escritório ganha significado quando aquilo que a empresa promete corresponde ao que se vive lá dentro. Quando a colaboração não é só uma palavra bonita e a confiança não depende de estarmos todos à vista. Quando podemos estar presentes sem ter de representar uma personagem durante oito horas.
Se calhar, o verdadeiro CTRL-Z da minha geração é à ideia de que o escritório é um cenário neutro, onde deixamos parte de nós à entrada. O trabalho não precisa de ser a nossa identidade inteira para merecer um lugar onde nos reconhecemos.
Já sabemos contar quantas pessoas cabem num escritório. Falta perguntar quantas sentem que cabem ali.
Carolina Santos, Brand Manager da Maleo

