São Paulo – Lisboa: a crónica de Erick Rosa

São Paulo – Lisboa: Erick Rosa estreia crónica no Briefing

Em janeiro último, Erick Rosa regressou ao seu Brasil. Depois de muitos anos em Portugal, que culminaram na direção criativa da Leo Burnett Lisboa, fez de São Paulo a sua nova casa. É essa mudança que inspira a crónica para o Briefing.

“A primeira pergunta que amigos de longa data me fazem ao me encontrar aqui depois dos anos vividos aí em Lisboa é: E então Erick, já se adaptou ao dia-a-dia em São Paulo?

As diferenças são enormes. São Paulo é enorme. Em todos os aspetos. Se na agência em que eu trabalhava aí éramos um pouco mais de 50, hoje, onde trabalho, somos mais de 400. Algumas vezes ainda passo por mal-educado ao não saber o nome das pessoas que encontro no café da agência. E em outras ocasiões, não sei ao certo se é um cliente ou mesmo um funcionário.

E com a Copa do Mundo e as Olimpíadas a caminho do país, os briefings quase que invariavelmente têm o tamanho de jogos olímpicos ou do Maracanã. Imagino que você deve estar pensando: (Ok, mesmo que não esteja, para efeito do texto, vamos fingir que sim) “Mas será que é bom trabalhar assim? Melhor? Pior?” A resposta não é simples. E juro que não tem aqui um lado meu diplomata tentando defender quem hoje paga o meu salário ou não criticar quem antes pagava aí em Lisboa. É simplesmente diferente. E de repente, você se acostuma. E quando você vê, já está a trabalhar em um briefing para a Copa do Mundo com budgets que muitas vezes intimidam qualquer papel em branco.

Mas confesso que faz falta trabalhar como antes. Explico. Para mim, trabalhar em Lisboa tem um aspeto fantástico que é não necessariamente estar sempre com os holofotes em cima o tempo todo, como acontece com quem trabalha nos países onde estão localizadas as sedes destas grandes multinacionais. Como é regra em Londres, Nova Iorque e São Paulo. Não que não exista a pressão, claro que existe. Mas em Lisboa sinto que o trabalho só é colocado sob a lupa ou o holofote, para manter coerência aqui no raciocínio, depois que o processo caminhou um pouco. E isso, muitas vezes permite um pouco mais de instinto, improviso, feeling e menos pesquisa, pesquisa e pesquisa.

Mas também acho que, apesar das diferenças, existe muita coisa em comum. Uma boa ideia continua sendo uma boa ideia em qualquer lugar do mundo. E isso não muda. As pessoas acessam os mesmos sites que divulgam as mesmas tendências, seja em Lisboa, São Paulo ou em Buenos Aires. E acho que talvez aí esteja uma forma mais correta de se ver as diferenças entre os mercados de Lisboa e o de São Paulo. No fundo no fundo, o Word é o mesmo, o InDesign e o Photoshop também. E, no final do dia, as pessoas vão embora para casa mais felizes quando se tem a sensação de que se chegou a uma boa ideia. Isso não muda, independente do país que você está.

E se aqui não tem o prego do Gambrinus, tem o do Bar Espírito Santo. Se aqui não tem a imperial do Seu Jaime, tem a do Bar Espírito Santo. Se aqui não tem os vinhos da Garrafeira Alfaia, tem os vinhos do Bar Espírito Santo. E finalmente, se aqui não tem os amigos que por aí ficaram, tem os amigos que insistem em se encontrar sempre no mesmo lugar: o Bar Espírito Santo. Mas, respondendo a pergunta que os meus amigos fazem quando me reencontram do lado de cá do Atlântico: sim, me readaptei ao dia-a-dia em São Paulo. Até porque, o bar que eu mais frequento, sim, você acertou, o Espírito Santo, é um bar inspirado nos melhores bares e tascas aí dessa cidade maravilhosa chamada Lisboa”.

Fonte: Briefing

Sexta-feira, 14 Setembro 2012 09:47


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