Um affair com a comida cem por cento vegetal, em que não há culpa nem arrependimento por comer apenas frutas, legumes e grãos. Apenas prazer! Faltam aspas nestas frases, mas são de autor: são de Henrique Costa Pereira, Operations Director do grupo Food Collection, e vêm a propósito de dois projetos de restauração de base vegetal – o The Green Affair e o Giulietta. Há uma terceira marca, o Nosh, mas funciona apenas em regime de delivery.
Tudo começou há cerca de dez anos, fruto da experiência pessoal de Henrique e do seu núcleo familiar, pois já praticavam uma alimentação estritamente vegetal. Daí a propor o conceito à administração do grupo em que trabalha foi um passo. E um passo bem sucedido, que radica numa missão: tentar influenciar o máximo de pessoas a conhecer e experimentar por forma a criar um futuro mais vegetal e mais sustentável, de forma financeiramente acessível, sem perder a dimensão do prazer e da indulgência.
Henrique Costa Pereira adianta que foi movido por uma “forte motivação de sustentabilidade”, com o seu “conhecimento muito próximo desta gastronomia” a levá-lo a concluir que não havia oferta no mercado lisboeta. Não obstante tudo indicar que esta “era uma tendência que tinha condições para continuar a crescer”, pelo que “seria importante trazer ao mercado ofertas que fossem apelativas para o público em geral e não apenas (na altura) ao nicho dos consumidores vegan”.
Partindo deste pressuposto, foram construídos os três pilares do projeto. Primeiro, a apresentação, com espaços com uma decoração cuidada, sem serem pretensiosos; uma equipa simpática, prestável e acolhedora; comidas e bebidas com estética apelativa; e uma imagem gráfica e presença cuidada nos meios digitais. O segundo prende-se com a preocupação de ser uma oferta democrática, que permitisse acesso a uma refeição completa por valores “muito razoáveis”, mas também um ambiente em que qualquer pessoa se sinta à vontade. O terceiro pilar é a oferta propriamente dita: pratos “confortáveis” com perfis que todos conhecem, com pratos de diversas cozinhas, alguns de edição limitada, uns com um perfil mais saudável, mas outros mais indulgentes, bebidas apelativas – aqui entra o sommelier Rodolfo Tristão, que assina a carta de vinhos.
Com estes pilares erguidos, chegava o tempo de abrir portas. O The Green Affair estreou-se em 2018, no Saldanha (Lisboa), com cerca de 60 lugares. Henrique Costa Pereira diz que foi um sucesso: “A dinâmica do menu de almoço, com as edições limitadas e as novidades que trouxemos na oferta inicial, como o bife de seitan ou o sem espinhas à lagareiro, dois pratos que criámos e que estão na nossa carta deste o primeiro dia, ajudaram a sedimentar o espaço e a criar uma referência naquele local tão movimentado.” Rapidamente, o espaço se revelou exíguo para a procura e houve que procurar um maior, o que viria a acontecer logo na porta ao lado. Entretanto, abriram mais dois em Lisboa (Chiado e Parque das Nações) e outro em Cascais.
E o conceito alargou-se no início de 2023, com uma nova marca – Giulietta. Surge – conta o diretor – do conhecimento e da paixão do grupo pela cozinha italiana: “Sabemos que é uma gastronomia consensual e que funciona para a generalidade das pessoas.”. Mas, não é só por isso: “Queríamos começar a trabalhar mais profundamente as gastronomias de forma mais específica, dentro do universo dos ingredientes estritamente vegetais.” Um ingrediente essencial para esta receita foi o novo chefe executivo, que desenvolveu uma carta que respeita as bases da cozinha italiana, mas que, ao mesmo tempo, também respeita o futuro em termos de sustentabilidade. Henrique Costa Pereira dá conta de que, apesar do pouco tempo de vida, a aceitação tem sido excelente: “Acreditamos que é uma marca que irá continuar a dar cartas, comenta.
Neste grupo de restauração, acredita-se que existe uma muito maior aceitação para integrar este tipo de alimentação, de forma normalizada, no dia a dia, mesmo que isso não implique uma transição integral da alimentação. “Basta, para isso, estar nos nossos restaurantes e observar e conhecer, dia após dia, quem nos visita. E, neste ponto, também sentimos que temos contribuído para o crescimento desta tendência”, realça o diretor de operações.
Este affair do grupo Food Collection com a gastronomia vegetariana está para durar. Há planos para fazer crescer estas duas marcas e também para oferecer outras ao mercado. Mas, para já, o segredo é a alma da expansão.
Fátima de Sousa
Leia o artigo na íntegra na edição impressa de junho de 2023.


