A localização do Farol Hotel não deixa dúvidas quanto à beleza que está reservada a quem nele entre: afinal, ergue-se nas escarpas sobre o mar, em Cascais. Mas, antes, há que deixar o olhar deslumbrar-se com os interiores, ou não fosse este um design hotel. Até que se chega, finalmente, ao The Mix, o restaurante que combina a arte na decoração com a arte na culinária, sempre com uma vista que não desilude.
A beleza natural é a moldura deste restaurante, em que se degusta uma refeição, seja ao almoço, seja ao jantar, sempre com o bater das ondas nas rochas como pano de fundo. E o Atlântico é, precisamente, a inspiração do chef Sebastian Fritye. Romeno de origem, chegou ao The Mix antes da pandemia, mas foi apenas em março de 2022 que estreou a sua primeira carta de assinatura.

Uma abordagem refrescante da culinária mediterrânica é o fio condutor das suas propostas, mas afunila o foco para servir pratos que reinterpretam a gastronomia. É certo que o ambiente pede peixe, mas o seu modo de trabalhar a carne surpreende. Diz-se um apaixonado pelo produto, mas o que quer mesmo é – e é o próprio que o diz à Briefing – “criar coisas que fiquem na memória”.
E ficam, algumas delas de tão inesperadas que são. Comecemos pelo que primeiro chega à mesa – enguia, um peixe que tem andado arredado dos restaurantes nacionais, mas que, aqui, é servido fumado, acompanhado de tomate biológico, vinagreta de estragão e morango e alface do mar cristalizada.
Igualmente tradicional, mas pouco recuperada na gastronomia contemporânea, é a língua de vaca, que o chef prepara como carpaccio, ladeado de brotos verdes que lhe dão frescura.
Nos principais, o robalo ao sal destaca-se pela textura suave, com as lascas a desfazerem-se, a carne branca e a pele brilhante como se acabada de pescar. A simplicidade da confeção fez honras à qualidade do pescado. No prato, beneficiou da companhia de esparregado de acelgas, berbigão e espargos verdes.
Para completar o desfile de frescura faltava a raia com molho de caldeirada, uma proposta ligeiramente mais indulgente por via dos pimentos recheados, lulinhas e batata fondant que completavam o prato.
A verdadeira indulgência estava reservada, claro, para as sobremesas. E, aqui, de novo a reinvenção de um clássico da gastronomia nacional – o arroz doce. Mas sob a forma de gelado, espuma, geleia de limão bergamota e physalis. O toque inconfundível da canela fez viajar no tempo.
As viagens são, aliás, uma das fontes de inspiração de Sebastian Fritye, o chef que, antes de fazer sua a cozinha do The Mix, passou pela Penha Longa, pelo The Oitavos e pelo Monte Mar.
Fátima de Sousa










