A sustentabilidade deixou de ser um tema periférico, associado sobretudo à responsabilidade ambiental ou à reputação das organizações. É, cada vez mais, uma ferramenta de gestão: uma abordagem que permite tomar melhores decisões, otimizar a utilização dos recursos disponíveis no presente e assegurar a viabilidade futura das empresas.
De facto, nada disto é novo. A continuidade e a viabilidade económica são preocupações intrínsecas à atividade empresarial. O que mudou foi o contexto. Perante os desafios ambientais e sociais, a evolução das exigências regulamentares e as expectativas do mercado, integrar a sustentabilidade na estratégia deixou de ser apenas uma opção de posicionamento. Tem consequências concretas no modelo de negócio, no plano de investimentos, nos custos operacionais, na gestão de riscos e na competitividade.
Esta mudança de perspetiva é fundamental. Sustentabilidade não é apenas reduzir emissões, reciclar embalagens ou publicar um relatório anual. É integrar critérios ambientais, sociais e de governação na estratégia e nas operações, medir impactos, antecipar riscos, identificar oportunidades e transformar essa informação em decisões que criem valor a longo prazo. A questão central já não é sobre se o investimento em sustentabilidade é viável, mas sobre como fazê-lo de forma consistente, mensurável e alinhada com o modelo de negócio.
Gerir o presente, preparar o futuro
A literatura académica tem vindo a demonstrar a importância de integrar diferentes dimensões do desempenho empresarial. John Elkington popularizou, em 1997, o conceito de triple bottom line, defendendo que o sucesso das organizações não deve ser avaliado exclusivamente pelos resultados financeiros, mas também pelo seu desempenho social e ambiental.
Hoje, esta perspetiva exige uma abordagem ainda mais estruturada. A sustentabilidade deve integrar a governação, influenciar a afetação de capital, orientar a gestão de riscos e oportunidades e contribuir para a resiliência das cadeias de valor.
Os dados confirmam a dimensão do desafio. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, as perdas económicas associadas a fenómenos meteorológicos e climáticos extremos na União Europeia atingiram cerca de 822 mil milhões de euros entre 1980 e 2024, dos quais mais de 208 mil milhões ocorreram apenas entre 2021 e 2024. Estes valores ilustram que os riscos ambientais têm consequências económicas concretas e crescentes.
Portugal tem igualmente um percurso a fazer. De acordo com o Relatório do Estado do Ambiente, da Agência Portuguesa do Ambiente, as emissões nacionais de gases com efeito de estufa, excluindo o uso do solo, alterações de uso do solo e florestas, foram estimadas em 53,2 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2023. Apesar da redução de 38,1% face a 2005, a transformação dos modelos de produção, distribuição e consumo continua a ser determinante para alcançar as metas climáticas.
Para as empresas, estes números devem interpelar a gestão: onde estão os principais impactos? Que recursos podem ser utilizados de forma mais eficiente? Que riscos podem comprometer o negócio? Onde existem oportunidades de inovação, redução de custos e diferenciação competitiva?
Medir é o primeiro passo para responder. Mas medir, por si só, não chega. É necessário estabelecer objetivos, definir planos de ação, atribuir responsabilidades e acompanhar resultados.
Da estratégia à ação empresarial
É neste percurso que a GS1 Portugal assume o seu papel de parceira da comunidade empresarial. Enquanto entidade dedicada à promoção de standards, interoperabilidade, eficiência e rastreabilidade nas cadeias de valor, reconhecemos que a sustentabilidade exige colaboração e capacidade de transformar princípios em práticas concretas.
Apoiamos as empresas na construção das suas estratégias e planos de ação de sustentabilidade, ajudando-as a identificar prioridades, estruturar indicadores e integrar esta dimensão na gestão do negócio.
Um exemplo é o cálculo da pegada de carbono, essencial para conhecer as fontes de emissão de gases com efeito de estufa, estabelecer uma situação de referência e identificar oportunidades de redução. Através deste serviço, apoiamos as organizações na quantificação das emissões e na compreensão dos impactos associados à sua atividade, incluindo os que se encontram a montante e a jusante da operação, sempre que aplicável.
Na logística e nos transportes, promovemos o programa Lean & Green, uma iniciativa europeia de colaboração orientada para a descarbonização das operações deste setor. O programa combina medição da pegada de carbono, definição de um plano de ação, acompanhamento da implementação e validação independente dos resultados. A otimização de rotas e cargas, a redução de viagens em vazio e a melhoria da eficiência operacional são exemplos de medidas que podem contribuir simultaneamente para reduzir emissões e custos.
Esta ligação entre desempenho ambiental e eficiência económica é particularmente relevante. A sustentabilidade não deve ser encarada como um custo adicional desligado da atividade; deve ser uma oportunidade para eliminar desperdícios, melhorar processos e reforçar a competitividade.
Preparar as empresas para uma nova realidade regulamentar
A transformação também é impulsionada pela evolução do enquadramento europeu. O Regulamento relativo a Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR), o Regulamento relativo à Desflorestação (EUDR), o desenvolvimento do Passaporte Digital do Produto (DPP) e a evolução das regras sobre alegações ambientais, incluindo a Diretiva da Capacitação dos Consumidores para a Transição Ecológica, colocam novos desafios às empresas em matéria de dados, rastreabilidade, conformidade e comunicação.
Mais do que responder isoladamente a cada requisito, importa preparar as organizações para uma gestão integrada da informação ao longo da cadeia de valor.
O PPWR reforça a importância de repensar as embalagens numa perspetiva de ciclo de vida e circularidade. O EUDR exige, para os produtos abrangidos, diligência devida e informação que permita demonstrar a conformidade com os requisitos aplicáveis em matéria de desflorestação. O DPP aponta para uma nova etapa na disponibilização de informação fiável e interoperável sobre os produtos, com implementação progressiva por categorias.
A GS1 Portugal acompanha esta evolução e apoia a comunidade empresarial na preparação para estes desafios, promovendo o conhecimento, a utilização de standards e a capacidade de partilhar dados consistentes entre os diferentes intervenientes da cadeia de valor.
Esta dimensão é decisiva: sem informação fiável, comparável e rastreável, torna-se mais difícil medir impactos, comprovar alegações, responder às exigências regulamentares e dar confiança aos parceiros comerciais e aos consumidores.
Transparência que cria confiança
A disponibilização de mais dados não garante, por si só, maior transparência. O verdadeiro desafio está em transformar informação técnica, dados, em conhecimento útil para a decisão — seja para uma empresa que procura reduzir as emissões da sua cadeia logística, seja para um consumidor que pretende compreender a origem e as características de um produto.
É também aqui que os standards e a rastreabilidade assumem relevância. Ao facilitar a identificação dos produtos, a partilha estruturada de informação e a interoperabilidade entre sistemas, contribuem para cadeias de valor mais eficientes e transparentes.
A confiança exige, contudo, rigor. Comunicar sustentabilidade implica distinguir resultados comprovados de objetivos futuros, evitar alegações genéricas e assegurar que as afirmações ambientais são sustentadas por evidências. A conformidade com um regulamento não equivale, por si só, a garantir sustentabilidade em todas as dimensões.
As empresas que compreenderem esta diferença estarão mais bem preparadas para responder às expectativas do mercado e construir relações duradouras com os seus públicos e partes interessadas.
Uma responsabilidade partilhada
A transição para modelos de negócio mais sustentáveis não se faz de forma isolada. Exige empresas comprometidas, parceiros capazes de colaborar, dados fiáveis, metodologias robustas e uma visão de longo prazo.
Na GS1 Portugal, entendemos a sustentabilidade como parte integrante da transformação empresarial. O nosso trabalho passa por apoiar as organizações a medir o seu impacto, definir prioridades, reduzir emissões, melhorar a eficiência e preparar-se para as exigências regulamentares e de mercado.
O objetivo não é apenas ajudar as empresas a cumprir requisitos. É contribuir para que desenvolvam capacidade de decisão, antecipem desafios e identifiquem oportunidades de criação de valor.
Porque a sustentabilidade, quando integrada na gestão, deixa de ser uma resposta a uma exigência externa e passa a ser uma condição para a continuidade do negócio. Afinal, gerir sustentavelmente é isso mesmo: utilizar melhor os recursos de hoje sem comprometer as possibilidades de amanhã.
Marta Résio, diretora de Sustentabilidade, Comunicação e Marketing, GS1 Portugal

