O Menu Primavera do Intemporal, em Paço de Arcos, tenta contar uma história através dos pratos, sem transformar a refeição numa aula ou num manifesto. E isso funciona a favor da experiência.
O chef António Simões, que assumiu a liderança do projeto, depois de acompanhar o restaurante desde o primeiro dia, parte muito da sua memória pessoal na construção do menu. Da infância em Vila Franca de Xira às hortas da família e às viagens, sem esquecer as referências construídas ao longo do percurso profissional. Mas essa dimensão biográfica surge de forma contida, estando presente nos sabores e nas combinações dos 11 momentos.
Logo no início, os Ovos Rotos com toro e gema curada dão o tom do menu: conforto reinterpretado sem perder identidade. O prato mantém a ideia de partilha e intensidade associada à receita original, mas ganha outro equilíbrio com a proximidade ao mar.
Depois, há momentos mais ligados à sazonalidade, como o morango verde com caviar, ou pratos onde a memória surge de forma mais direta, como o Coscorão, inspirado nas idas às ribeiras alentejanas. Sem excesso de construção conceptual, percebe-se a intenção de ligar produto, território e percurso pessoal.
Um dos momentos mais interessantes da refeição chega com o Khao Soi, com tagliatelli de lula curada, sopa khao soi, noodle de ovo frito, pele de frango crocante insuflada e couve chinesa fermentada. A referência ao prato tradicional do norte da Tailândia é clara, mas António Simões evita a reprodução literal. O caldo mantém profundidade e especiarias, enquanto os elementos do prato são reinterpretados com técnica e produto mais próximos da sua linguagem.
“O maior desafio deste menu foi o Khao Soi. Provei a receita tradicional na viagem que fiz ao norte da Tailândia, e senti logo vontade de o recriar, mantendo a sua base técnica, o picante e o aroma forte das especiarias, mas dando o meu cunho pessoal, criando algo diferente”, explica o chef, que partilha ainda que o feedback ao menu “tem sido muito positivo”.
Também o Goraz e o Cordeiro de Leite ajudam a consolidar essa ideia de cozinha de memória. Há cuidado na execução e um trabalho consistente sobre textura e equilíbrio.
Pelo meio, o pão de fermentação lenta servido com manteiga de cabra e azeite acaba por ser um dos momentos mais simples – e mais eficazes – da experiência.
Nas sobremesas, o menu fecha de forma coerente, primeiro com o morango e depois com o Amazonas, onde chocolate negro, maracujá e caju prolongam a viagem para sabores mais densos e tropicais.
No Intemporal, António Simões não tenta reinventar a alta cozinha. O que faz é mais difícil: criar uma experiência coerente, pessoal e sem excesso de ruído.
A par deste menu, o Intemporal propõe o Menu Passageiro, com seis momentos selecionados do menu original, disponível apenas ao almoço.
Carolina Neves








