Em 2003, nascia a Fundação Portugal Telecom, integrada na área de Acessibilidade da PT Comunicações, com o objetivo de promover a utilização sustentável das Tecnologias de Informação e Comunicação. Em 2019, passou a Fundação Altice Portugal e, em 2025, adotou a atual designação de Fundação MEO. Ao longo deste percurso, a tecnologia e as necessidades da sociedade evoluíram, mas manteve-se o propósito de a colocar ao serviço das pessoas.
A diretora explica que, apesar destas transformações, a essência da missão manteve-se e ganhou “maior clareza e expressão” através de três pilares de atuação: inclusão, literacia digital, e arte e tecnologia. “Na prática, passámos a trabalhar com uma identidade mais próxima das pessoas e com uma maior articulação entre projetos, parceiros e equipas”, diz. Carolina Pita Negrão realça que há uma pergunta que orienta cada vez mais o seu trabalho: “como podemos ampliar o alcance de uma solução sem perder a atenção às necessidades específicas de cada pessoa?”. Na sua perspetiva, esse equilíbrio entre escala e proximidade é central nesta nova fase da Fundação.
Para a responsável, o acesso à tecnologia “é fundamental, mas não é suficiente”. Há quem encontre barreiras devido a uma deficiência, quem receie realizar uma operação online ou quem precise de aprender a reconhecer uma tentativa de fraude. É nestas situações concretas que a missão de contribuir para que ninguém fique para trás ganha sentido.
O primeiro passo é ouvir as pessoas e as organizações que trabalham diretamente com elas. Mais do que identificar um problema, importa perceber as suas consequências e avaliar onde a Fundação pode contribuir com o conhecimento e os recursos disponíveis. Uma solução pode parecer adequada, mas não responder à dificuldade real de quem a vai utilizar. É igualmente necessário perceber se pode ter continuidade e chegar a outros públicos ou territórios.
Por vezes, as barreiras tornam-se menos visíveis porque as próprias pessoas deixam de procurar determinadas experiências. Quem encontra dificuldades de acessibilidade num cinema, por exemplo, pode simplesmente deixar de consultar a programação. Para Carolina Pita Negrão, promover a inclusão implica chegar também a quem deixou de tentar participar, criando condições para que possa voltar a escolher onde quer ir e o que quer fazer.
Mais do que saber utilizar a tecnologia
A literacia digital vai além da utilização das ferramentas, abrangendo competências como a segurança online, a proteção de dados e o reconhecimento da desinformação. O programa “Comunicar em Segurança”, desenvolvido desde 2009, já chegou a cerca de 620 mil alunos, em aproximadamente quatro mil escolas, através de mais de 18 mil sessões. A ambição passa agora por atualizar os conteúdos e alargar a intervenção a outras gerações, incluindo os seniores, recorrendo também a formatos que envolvam as famílias e a comunidade educativa.
A evolução tecnológica coloca novos desafios a este trabalho. A inteligência artificial pode facilitar a comunicação, adaptar conteúdos e apoiar a aprendizagem, contribuindo para uma maior autonomia. Contudo, levanta também questões sobre a fiabilidade da informação, a proteção de dados e a capacidade de reconhecer conteúdos manipulados ou respostas aparentemente credíveis, mas incorretas.
Neste sentido, a literacia digital passa também por compreender como funcionam estas ferramentas, saber quando confiar nelas e reconhecer quando é necessário confirmar a informação. A responsável defende que a inovação deve partir de necessidades concretas e ser testada de forma responsável, com a participação das pessoas a quem se destina.
Acessibilidade pensada de raiz
Na acessibilidade, um dos principais desafios passa por integrar as soluções desde o início, em vez de as tratar como um complemento. Mais do que garantir a entrada num espaço, importa assegurar que as pessoas com deficiência conseguem aceder à informação, acompanhar um espetáculo ou usufruir de um serviço com autonomia. É neste contexto que se inserem os projetos “Com Sentido”, através dos quais a Fundação procura tornar diferentes experiências mais acessíveis.
A experiência depende de todo o percurso. Se alguém não conseguir perceber antecipadamente que recursos estão disponíveis ou como os utilizar, a acessibilidade pode ficar comprometida, mesmo quando existe uma solução no local. Por isso, além dos recursos técnicos, são importantes a formação das equipas, a continuidade das respostas, e o envolvimento das pessoas com deficiência na conceção e avaliação das iniciativas.
A Fundação procura também trabalhar em parceria com entidades que conhecem de perto os públicos e os contextos em que intervêm. A colaboração permite combinar conhecimentos e desenvolver respostas mais adequadas, mas não deve terminar no lançamento de um projeto. Acompanhar a sua utilização, recolher opiniões e introduzir melhorias são passos necessários para que as soluções se mantenham relevantes e possam ser aplicadas noutros contextos.
Levar a arte a novos públicos
Por fim, o pilar arte e tecnologia parte da ideia de que a criação artística também pode aproximar pessoas, estimular a reflexão e abrir novas perspetivas sobre a sociedade. A organização procura facilitar o contacto com obras e artistas, incluindo junto de públicos que não têm uma relação habitual com a arte.
A Coleção de Arte Contemporânea e o Espaço Fundação MEO, em Lisboa, integram este trabalho de aproximação. Em 2027, a coleção assinala 30 anos, uma ocasião que a instituição pretende aproveitar para alargar a sua presença e chegar a novos públicos. Para a diretora, o valor de uma coleção não reside apenas nas obras que reúne, mas também na possibilidade de estas serem conhecidas, vividas e partilhadas.
Avaliar o impacto das iniciativas é outra dimensão deste percurso. O número de participantes, as escolas abrangidas ou a utilização de uma aplicação permitem medir o alcance, mas não explicam, por si só, a mudança produzida. A Fundação procura, por isso, cruzar os indicadores com os testemunhos e as avaliações de utilizadores e parceiros, percebendo se as respostas são úteis e onde podem melhorar.
Para os próximos anos, as prioridades passam por alargar a acessibilidade, reforçar a literacia digital junto de diferentes gerações e aproximar a arte de novos públicos. Depois de uma fase marcada pelo desenvolvimento de projetos, a Fundação MEO pretende agora reforçar o seu alcance e assegurar a continuidade das iniciativas, mantendo o foco nas necessidades concretas das pessoas.
Uma aplicação que alarga horizontes
A App SENTIDO reúne recursos de acessibilidade numa única aplicação, permitindo aceder, consoante a oferta de cada evento, a Língua Gestual Portuguesa, audiodescrição e legendas em tempo real. O objetivo é dar mais autonomia às pessoas com deficiência e facilitar a participação em experiências culturais e de lazer.
“Entre o lançamento, em junho, e o final de agosto, a app ultrapassou os três mil downloads”, revela a diretora da Fundação MEO. A aplicação já esteve presente em eventos de música e desporto, contextos que permitiram recolher opiniões dos utilizadores e perceber o que pode ser melhorado, nomeadamente ao nível da simplicidade e da intuitividade. A experiência mostrou também a importância de comunicar antecipadamente os recursos disponíveis, para que as pessoas saibam, antes de se deslocarem ao evento, que condições de acessibilidade vão encontrar e como podem utilizá-las.
O próximo passo passa por alargar a sua presença ao cinema, aos museus, e a outros espaços culturais e de lazer. “A acessibilidade deve ser pensada desde o início, na preparação dos eventos e na informação que é dada ao público”, sublinha Carolina Pita Negrão.

