O mundo mudou. E com ele, mudou também a forma como discutimos política. As redes sociais tornaram-se num novo espaço público: é lá que acontecem os debates, as discussões, as perguntas e as respostas. É lá que se formam opiniões, se confrontam pontos de vistas e, muitas vezes, se radicalizam discursos.
Com a evolução das redes sociais digitais, surgiram também novas maneiras de comunicar. A política deixou de estar fechada em parlamentos, debates televisivos ou conteúdos pagos. Tornou-se mais imediata, mais acessível e, acima de tudo, mais participativa. Hoje, em poucos segundos, qualquer pessoa com acesso à internet pode entrar numa discussão sobre qualquer tema, incluindo política.
É neste contexto que emergem os influenciadores políticos. Não são um acaso. São o resultado direto de novas dinâmicas digitais, de novos formatos e, sobretudo, de uma necessidade urgente — especialmente entre os mais jovens — de compreender a política de forma mais clara, direta e, muitas vezes, mais informal.
Em Portugal, 53 % dos jovens ainda preferem a televisão como principal fonte de informação política — acima da média europeia de 39%. No entanto, 40% já apontam as redes sociais como principal fonte de informação, um valor muito próximo dos 42 % registados na União Europeia. Estes números mostram uma transição em curso: os media tradicionais continuam relevantes, mas o digital está a consolidar o seu espaço, especialmente entre as novas gerações, criando espaço para novas vozes emergentes.
Hoje, estes criadores de conteúdo são, na prática, líderes de opinião. Lideram comunidades altamente envolvidas, moldam perceções e influenciam comportamentos. Conseguem promover causas, candidatos e agendas políticas, ao mesmo tempo que traduzem debates complexos para uma linguagem mais acessível. Mais do que comentar política, ajudam a construí-la ou, pelo menos, a moldar a maneira como é compreendida.
Os benefícios são evidentes. Os influenciadores políticos mobilizam as suas comunidades, contribuem para aumentar a literacia política, pressionam instituições e criam espaço para debates que, de outra forma, poderiam não existir. Num contexto de desconfiança crescente em relação aos media tradicionais, oferecem uma alternativa que é considerada mais próxima e autêntica.
Mas os riscos também são reais. A mesma capacidade de mobilização pode facilmente transformar-se em polarização. As audiências tendem a organizar-se em torno de visões semelhantes, criando bolhas ideológicas difíceis de furar. A linha entre opinião e manipulação pode tornar-se difusa, o que levanta questões sobre transparência e responsabilidade.
Da minha experiência enquanto criador de conteúdos digitais — focando-me especialmente no nicho da política — posso dizer, com toda a tranquilidade, que existimos. E mais do que existir, estamos a crescer.
No espaço de apenas um ano, construí uma comunidade que hoje soma quase 11 mil seguidores apenas no TikTok, com mais de 3,2 milhões de visualizações, quase 360 mil gostos e mais de 29 mil partilhas. Mas mais do que números, o que realmente importa é o impacto que está por trás deles. Através de conteúdo explicativo e opinativo, simplifico temas altamente complexos, questiono decisões políticas e procuro, acima de tudo, tornar a política mais acessível para todos. E a resposta tem sido clara: as pessoas querem perceber. Querem aprender. Querem participar.
Não somos apenas “comentadores digitais”. Somos, muitas vezes, o primeiro ponto de contacto entre a política e uma geração que não se revê nos formatos tradicionais. A verdade é simples: os jovens revêm-se em jovens. E querem ouvir informação “da boca” de outros jovens. E aqui está uma das maiores falhas do ecossistema mediático tradicional: faltam jovens a falar de política na televisão. Mas não me refiro a jovens integrados nas elites políticas, treinados para repetir discursos partidários. Falo de jovens reais, com dúvidas reais, com linguagem acessível e com uma vontade genuína de participar, questionar e transformar.
Os influenciadores políticos não são o futuro — são o presente. Representam uma nova camada da democracia, mais informal, mais imediata e, inevitavelmente, mais desafiante. Cabe-nos, enquanto sociedade, deixar de ser apenas espectadores, mas também assumirmos um papel de questionar, escrutinar e responsabilizar. A questão não é o alcance dos influenciadores políticos. É a qualidade do debate democrático que ajudam a construir.
Pedro dos Santos, ativista e mestrando em Ciência Política no ISCTE

