A opinião de… Ilda Santos, da IBM Portugal

Cumprir a Diretiva de Reporte de Sustentabilidade Corporativa (CRSD).

A opinião de… Ilda Santos, da IBM Portugal

Já se passou mais de um ano desde que entrou em vigor a Diretiva de Reporte de Sustentabilidade Corporativa (CRSD) da União Europeia que, juntamente com os standards europeus de relatórios de sustentabilidade (ESRS), exigem que todas as grandes empresas que operam na UE cumpram novas regras de divulgação na área de sustentabilidade.

Têm sido feitos esforços para obrigar as empresas a reportar apenas tópicos que lhes sejam relevantes. No entanto, o primeiro grupo de empresas já terá de reportar de acordo com a CSRD para o exercício financeiro de 2024, e está a tornar-se cada vez mais claro que muitas ainda não têm noção da dimensão do desafio que têm pela frente.

Os dados demonstram que muitas empresas estão a enfrentar dificuldades com o nível de detalhe exigido pelas regras impostas. Um estudo realizado pela Baker Tilly revela que 88% das empresas europeias ainda não se sentem preparadas para cumprir as expetativas da CSRD e 57% pensa que tem pouco ou nenhum conhecimento das novas obrigações de reporte ESG que surgiram da CSRD.

E isto apesar do desenvolvimento de diretrizes pelo European Financial Reporting Advisory Group (EFRAG). Algumas questionam se alguma “catástrofe” poderá estar próxima e o que as empresas devem fazer para agir antes que seja tarde demais.

O amplo alcance da diretiva é o primeiro desafio-chave. A CSRD alarga as obrigações de reporte das empresas além das suas próprias operações, por forma a incluir o impacto na sustentabilidade de toda a sua cadeia de valor, abrangendo fornecedores, distribuidores e clientes.

Para estarem em conformidade, as empresas terão de reunir e consolidar grandes volumes de dados dos parceiros da sua cadeia de abastecimento – uma tarefa desafiante para aqueles que tenham um conhecimento limitado das práticas ambientais e sociais da sua cadeia de valor. Esta questão pode exigir que muitas empresas repensem completamente as suas cadeias de abastecimento e explica por que razão, para algumas, o pânico já estará a instalar-se.

Um segundo desafio advém da estipulação da regulamentação de que alguns dos dados reportados devem ser baseados em evidências científicas conclusivas. Este requisito é particularmente difícil de endereçar e irá obrigar muitas empresas a investir em novas soluções complexas, incluindo modelagem de cenários e analítica.

O que nos leva ao desafio das competências que serão necessárias para cumprir estes complexos requisitos de reporte, bem como para gerar resutados face às metas de sustentabilidade. O sucesso requer a disponibilidade de competências ESG e de sustentabilidade relevantes, bem como a capacidade de gerir e interpretar dados complexos.

Face os prazos apertados com que as empresas operam, pode não haver tempo para contratar novas pessoas. Em vez disso, as empresas poderão precisar de recorrer a consultores para obter suporte ou contentar-se com as capacidades que possuem hoje, mapeando as competências existentes face aos requisitos e requalificando, sempre que necessário.

Além das competências especializadas, as empresas necessitarão, naturalmente, das ferramentas e da tecnologia certas, que lhes permitam rastrear e analisar dados complexos, monitorizar o progresso e reportar face a um vasto número de objetivos de curto, médio e longo prazo. Para cumprir a CSRD e os standards europeus de relatórios de sustentabilidade, as empresas também devem garantir que quaisquer declarações relacionadas com métricas ESG e desempenho de sustentabilidade sejam totalmente auditáveis.

Uma última e fundamental área de incerteza diz respeito às consequências do incumprimento – não a um, mas a dois níveis. O que arrisca exatamente uma empresa se não cumprir as novas regras? A diretiva estabelece que as penalidades por incumprimento da CSRD serão determinadas por cada estado-membro da UE com base nas leis do estado mais relevantes.

Então, o que acontecerá às empresas se não cumprirem as suas metas de sustentabilidade, nem cumprir com a CSRD? Para alguns países como a Alemanha, podem ser aplicadas multas até 10 milhões de euros. E, em alguns casos, até 5% da receita anual de uma empresa. As penalidades serão diferentes entre países e empresas e representam mais uma área de “incerteza” na implementação da diretiva.

Com estas questões e desafios em mente, acreditamos que os responsáveis pelos departamentos de sustentabilidade, os líderes de ESG e o C-Suite devem priorizar os preparativos para a CSRD em quatro áreas cruciais:

  1. Competências e tomada de decisão: Além de desenvolverem novas competências e práticas de sustentabilidade internamente, as empresas devem garantir que os seus auditores externos têm o conhecimento necessário para fornecerem uma avaliação de “grau financeiro” dos relatórios de sustentabilidade
  2. Dados de terceiros e ecossistemas: Fornecendo orientação sobre a melhor forma de cumprir, e solicitando a parceiros e fornecedores que preparem a infraestrutura de relatórios necessária, as organizações conseguirão extrair e gerir da melhor forma os dados ESG relevantes em toda a organização e no ecossistema de parceiros
  3. Tecnologia digital: A CSRD exige dados multifacetados. As empresas já deveriam estar a trabalhar de forma próxima com os seus departamentos de TI para identificar lacunas na recolha e gestão de dados e investir em arquitetura empresarial especializada para ESG, a fim de disponibilizar soluções que forneçam dados ESG robustos, adequados para utilização em relatórios e divulgação
  4. Integração de processos e negócios: O cumprimento da CSRD exigirá uma equipa multifuncional para supervisionar e gerir o processo de reporte. Considerar indivíduos com experiência em relatórios de sustentabilidade, gestão de dados, TI, legal e comunicações – bem como ESG – ajudará a garantir um início suave para a jornada de relatórios da CSRD, bem como a incorporação de métricas ESG em várias funções

Como parte de um estudo global de sustentabilidade de 2023 realizado pela Verdantix, 38% dos 400 responsáveis pelas áreas de sustentabilidade inquiridos afirmaram não se sentir confiantes na sua capacidade para fornecer dados ESG com grau de investimento.  O estudo também revelou que a colaboração externa com fornecedores e clientes é um dos desafios mais significativos que as empresas enfrentam.

Tendo em consideração que estas regulamentações podem estabelecer o precedente para a elaboração de relatórios de sustentabilidade em todo o mundo, é imperativo que os líderes de sustentabilidade abordem as quatro áreas cruciais. À medida que se aproxima o prazo para as empresas começarem a reportar relatórios em resultado da CSRD, a necessidade de clareza nunca foi tão crucial.

Ilda Santos, Sales Advisory IBM Sustainability Software da IBM Portugal

Quarta-feira, 20 Novembro 2024 09:09


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