Briefing | As parcerias com marcas têm sido centrais na atuação da Associação Vila com Vida. O que define uma boa parceria neste contexto?
Filipa Pinto Coelho | Na VilacomVida encaramos todas as parcerias como alianças estratégicas com impacto. Assim, procuramos que, alinhados valores e objetivos de impacto social, sejamos capazes de oferecer ao nosso parceiro uma resposta win-win.
Para nós, o sucesso da parceria começa no alinhamento de valores, mas concretiza-se na personalização da resposta. O nosso papel é ouvir as necessidades da organização – seja através do recrutamento inclusivo, de serviços de catering com propósito, do café solidário no escritório ou de ações de team building transformadoras. Procuramos oferecer soluções flexíveis que resolvam problemas reais das empresas.
Em contrapartida, procuramos parceiros com compromisso e abertura para a co–construção. Entendemos por isso que uma boa parceria é aquela em que a organização não quer apenas “ajudar”, mas sim tornar-se um exemplo vivo e contagiante de inclusão, integrando o impacto social e a transformação positiva do olhar sobre a diferença no seu ADN e na sua cultura organizacional.
Que contributo pode o modelo for&from dar para acelerar a criação de um mercado de trabalho mais inclusivo e sustentável em Portugal?
O modelo for&from do Grupo Inditex — que a VilacomVida implementa com orgulho em Portugal através das lojas Zara Home, no Freeport Alcochete, e no Porto Vila do Conde Fashion Outlet — é a prova viva de que a inclusão pode integrar um modelo de negócio eficiente e não ser apenas um pilar ético e responsável de uma empresa. Ao empregarmos 29 pessoas com diversidade funcional, demonstramos que as organizações sociais, quando dotadas de capacidade de gestão e especialização em recrutamento inclusivo, tornam-se parceiras estratégicas capazes de potenciar os resultados de grandes grupos empresariais. Este modelo acelera o mercado de trabalho inclusivo ao provar que não é necessário ‘reinventar a roda’ para gerar impacto: ao gerirmos diretamente o escoamento de coleções passadas com o suporte logístico e de marketing da Inditex, transformamos uma necessidade operacional da marca numa operação de retalho profissional e rentável. No final, a margem deste negócio é reinvestida na sustentabilidade da nossa missão, criando um ecossistema onde o talento de pessoas com capacidades diferentes se torna motor de uma economia mais justa e circular. O sucesso deste projeto é um convite aberto para que outras organizações — em diferentes setores de atividade — possam seguir este exemplo e assim desenharem parcerias que transformem o impacto social num ativo estratégico para as suas marcas e para o país onde estão integradas.
Qual a leitura que faz do impacto do Café Joyeux enquanto projeto que junta empregabilidade e mudança de perceções sobre a deficiência intelectual?
Quando em 2021 nos propusemos representar esta grande marca e missão do Café Joyeux em Portugal, o nosso objetivo era claro: criar um modelo de inovação e transformação social que permitisse executar a nossa missão de juntar dois mundos hoje separados, trazendo a diferença para o centro das nossas vidas e das nossas cidades, e proporcionando simultaneamente, a qualquer cidadão, ter um impacto social real através de um gesto tão simples como tomar um café ou almoçar. O Café Joyeux propõe assim ser mais do que um serviço de restauração inclusivo e de qualidade; para ser visto como uma plataforma de transformação de perceções, normalizando a diferença – para que um dia ela faça genuinamente parte de nós. Ao colocarmos pessoas com dificuldades intelectuais e do desenvolvimento no centro da operação, estamos a demonstrar, na prática e sem filtros, a sua real capacidade profissional. E acreditamos que ao impactar o indivíduo, estamos a transformar também o gestor, o professor ou o colega que, amanhã, olhará para a diversidade como um ativo que enriquece e fideliza equipas. O crescimento muito rápido do projeto — que hoje conta com seis espaços em Lisboa, Cascais e Porto, empregando 38 jovens-adultos com trissomia 21 ou autismo — é a prova de que o preconceito é muitas vezes mais teórico do que prático. Com mais de 11000 tickets mensais, além dos serviços de catering e venda de marca própria, o Café Joyeux valida um modelo de negócio que caminha para a sustentabilidade através da excelência do serviço prestado por equipas inclusivas. Este sucesso permite-nos transitar de uma lógica dependente de fundraising para um modelo de receitas próprias, onde cada serviço prestado serve o propósito de escalar a nossa missão de integração em Portugal.
Como pode o setor empresarial ser mais exigente consigo próprio no que toca à criação de oportunidades de emprego verdadeiramente inclusivas?
Eu diria que o primeiro passo será fazer dessa intenção um KPI estratégico real a atingir na organização — o que implica também a alocação de recursos e orçamento para este efeito. O acompanhamento especializado — à empresa, à equipa que integra, ao colaborador e muitas vezes à respetiva família – é a estratégia que melhor se adequa ao sucesso destes objetivos – e muitas vezes, sem esta consciência do 360º que é necessário – as empresas podem dele prescindir, impactando negativamente algumas experiências de inclusão que possam ter querido viver, criando medos desnecessários. O match entre a necessidade da empresa e o perfil do colaborador têm de ser muito bem feitos, e é isto que organizações especializadas como a VilacomVida e outras neste domínio, conseguem assegurar. Na VilacomVida temos um modelo de proximidade com os nossos parceiros – em linha com o conceito de “key account” das agências – que assegura uma comunicação fluída e o sucesso na integração, sem perda de tempo, que é objetivo de todos. É fundamental que exista uma visão top-down que reconheça que equipas inclusivas são um ativo de produtividade e fidelização: ao identificarmos funções processuais e rotineiras que se adequam perfeitamente a estes perfis, não só garantimos a sua execução, como libertamos outros colaboradores para tarefas de maior valor acrescentado. Ser exigente é, portanto, encarar a inclusão não como um ato de caridade, mas como uma decisão de gestão inteligente que fortalece a cultura organizacional, os valores da marca e pode trazer ganhos de produtividade.
Que responsabilidade têm hoje as marcas na normalização da diversidade?
Acreditamos que as marcas podem ser cada vez mais agentes de literacia social e normalização de comportamentos. Num mundo onde o consumidor valoriza cada vez mais a autenticidade, propostas que humanizam experiências tendem a superar a sazonalidade das campanhas para serem assimiladas pelo consumidor como práticas quotidianas e visíveis, que transformam e fidelizam. Ao integrarem equipas diversas nos seus pontos de venda e na sua comunicação, estão a contribuir diretamente para transformar o olhar, normalizar comportamentos e a enviar uma mensagem clara de que a inclusão é a norma e não a exceção. Esta visibilidade é fundamental para quebrar preconceitos estruturais e para inspirar outras organizações a perderem o medo de contratar — porque deixa de ser “especial” para ser “normal”. É também esta a nossa missão na VilacomVida – inspirar outras empresas e marcas para acreditarem que elas têm o poder de transformar o “invulgar” em “natural”, e ao fazê-lo, não estão apenas a cumprir um dever ético, mas a construir uma ligação emocional mais profunda com o seu público e a contribuir para uma sociedade onde o talento é valorizado independentemente da sua forma. No fundo, a responsabilidade das marcas é serem o espelho do mundo que queremos construir: mais humano, mais diverso e, por isso mesmo, muito mais rico e criativo.
Simão Raposo

